quinta-feira, 30 de abril de 2009

En tus brazos dei dois passos para o lado...



porque ontem foi dia mundial da dança

lembrei-me...

e procurei esta pequena maravilha

que aqui deixo.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

ARREPIO...



Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Alexandre O'Neill

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá...

a não perder...


Daniel Pennac foi um péssimo estudante. Hoje, é um dos nomes mais importantes – e populares – da literatura francesa.
O que à partida poderia parecer incongruente, torna-se compreensível através da leitura de Mágoas da Escola.
A escola sob uma perspectiva surpreendente: a de um mau aluno. É sob esse ponto de vista que o autor analisa os problemas que se vivem nas escolas e na educação, dando à figura do cábula a dignidade e a atenção que merece e, não menos importante, sublinhando a angústia e a dor que inevitavelmente o acompanha – “a dor de não compreender”.
Pela reflexão que inevitavelmente proporciona, este Mágoas da Escola é um livro que todos os pais, educadores, professores, pedagogos, jornalistas, líderes de opinião e responsáveis políticos não podem deixar de ler – e dar a ler.


Prémio Renaudot em 2007,

50 semanas nos tops de vendas franceses.

...A verdade é que fui um mau aluno e que a minha mãe nunca se refez completamente desse desgosto. Hoje que a sua consciência de senhora muito idosa abandona os limites do presente e reflui lentamente para os longínquos arquipélagos da memória, os primeiros recifes que emergem recordam-lhe a inquietação que a devorou durante toda a minha escolaridade...
... Eu era, portanto, um mau aluno. Na minha infância, chegava todos os dias a casa perseguido pela escola. As minhas cadernetas reflectiam a censura dos professores. Quando não era o pior da turma, era o penúltimo. (Bravo!) Impenetrável à aritmética primeiro, à matemática em seguida, profundamente disortográfico, refractário à memorização das datas e à localização dos pontos geográficos, inapto para a aprendizagem de línguas estrangeiras, considerado preguiçoso (lições não estudadas, deveres por fazer), levava para casa notas lamentáveis que nem a música, uma qualquer actividade desportiva ou extracurricular, de resto, conseguia remediar...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Sonhei

Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fonte. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Amor Grande ...




Cima is ta dzê n'inglês
I love you, I need you
Quero dizer também em Português
Te amo, eu te preciso

E não há nada que levar a mal
Ma nôs ê, tud igual
I know you can understand me
Eu gosto muito, muito, muito de ti...

You know I love you, I love you, I love you, I really love you, I love you
You know I need you, I can't live without you, não há ninguém como tu

Ca tem ninguem cima bo (4x)

Alo bonjour comment ça va
Mana Sara do lado de lá
Mim m'ta bom e bo manê q'bo ta
Sara Mana do lado de cá

Maybe together you and me
Mi ku bo, bo ku mim
Mi ma bo
Eu e tu, tu e eu


I know you can understand me
Maybe juntos together, forever happy

You know I love you, I love you, I love you, I really love you, I love you
You know I need you, I can't live without you, não há ninguém como tu

Ca tem ninguem cima bo (4x)

Um só povo
Um só coração
One love

Branco ku preto
Burmedjo ku marelo
Ka tem diferença não
Ama na fé
Ama bué
Amor grande no coração

sábado, 25 de abril de 2009

Reflexos









fotos Maria Joyce

Tão simples tão verdadeiro...






Vencedor do festival de curtas da Austrália

Viver com (dois) pés na Primavera

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques-
um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
beberá na boca da amada.
Fará um filho.Versos.
Será assaltado pelo mundo
caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.

Fernando Assis Pacheco


Para um homem prodigioso,
que nunca se ficou
vive com os dois pés na primavera
e ilumina-nos os passos
assim...como se fosse o sol!
Parabéns Pai

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Delicioso e desconcertante inventor de palavras...

Pronto. Já escuto as vozes dos que me vêm buscar. Vou fechar este escrito, fechando-me eu nele. Esta é a minha última carta. Antes, já tinha deitado minha voz no silêncio. Agora, calo as mãos. Palavras valem a pena se nos esperam encantamentos. Nem que seja para nos doer como foi meu amor por Vasto. Mas eu, agora, estou incapaz de sentimento. Me impenetrei em mim, ando em aprendizagem de fortaleza. No final de tanta linha já sei a quem deixar esta carta. A Marta Gimo. Foi ela a última pessoa a me escutar. Seja em seus olhos que me despeço da última palavra. Agora, vou sonhar-me.


No início, me inconsolava com este degredo. Para além da enfermaria, não tinha com que desocupar o tempo. De tal maneira que deixei de sonhar. Só os pesadelos me visitavam. Eu estava aleijada desse órgão que segrega as matérias do sonhar. Eu estava doente sem doenças. Sofria dessas maleitas que só Deus padece. Aconteceu assim: primeiro, me acabou o riso; depois, os sonhos; por fim, as palavras. É essa a ordem da tristeza, o modo como o desespero nos encerra num poço húmido. (...)Foi nesse afundamento que me apaixonei por Vasto. O amor não é o irremediável remédio? Um dia, ele se chegou e me surpreendeu em flagrante lágrima. Me enxugou o rosto. Não sei se conhece o mandado: quem limpa lágrima de mulher fica amarrado em nó de lenço?

Mia Couto
companheiro do sentir
encantador de palavras
fazedor de ternura
dono de palavras que ainda não nasceram...

PLANO

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice


"seja em seus olhos que me despeço da última palavra
Agora, vou sonhar-me..."

Elefantemos portanto

PARA O MIA COUTO

Elefantemos portanto.

Deixemos esta tão precária pele
Aprender outros saberes

Deixemos
Portantomente
O olhar do paquiderme
Ensinar ao passarinho
As paisagens do deslumbre
Das escritas mais antigas.

Permitamos que o vento sopre.
E que a pedra exista.
E que o sol dispare a sua fúria
Em todas as direcções.
E que a lua se entretenha
No seu jogo de brilhar.

Elefantemos portanto.

Ou,
Melhor dizendo,
Permitamos que um silêncio muito antigo
Venha
Carregado de silvos e sussurros
Venha
Conduzir-nos a palavra
Pelas veredas impalpáveis
Do mistério.

José Fanha

HISTÓRIAS LIVROS HISTÓRIAS LIVROS

O dia mundial do livro foi ontem mas nunca é tarde ...
HISTÓRIAS

Conta-me uma história
carregada de orientes
músicas suaves
e perfumes.

Uma história envolta em pérolas
princesas
e peixes deslumbrantes.

Senta o meu olhar na tenda do deserto
sob a grande lua.
Peço: mostra-me os teus mapas irreais.
Fala-me do mar
ilhas misteriosas
a pimenta e a canela.

Desenha com palavras o brilho dos topázios
e o deslumbre sonoro
das intensas noites tropicais.

Não te contenhas. Voa.
Tece palavras e milagres.
Inventa-te anil vermelha e violeta.
Rouba à terra as cores ferruginosas.
Rouba aos rios o seu leito luxuoso de calhaus rolantes.
Toca os meus lábios com a seda sequiosa dos teus lábios.

Conta-me uma história
de ladrões felizes.

José Fanha
(IN "TEMPO AZUL")

quinta-feira, 23 de abril de 2009

La forza dell'Amore...

"UM HOMEM TEM DE VIVER COM UM PÉ NA PRIMAVERA"






Avevo sedici anni
ero un timido nei panni
di un ribelle visto alla televisione
ma la forza dell'amore
la conoscevo già

e se avevo paura
facevo la faccia dura
per le strade della mia città
ma la forza dell'amore
la sentivo già.

È la forza dell'amore
quella che non fa dormire
finché il sole con l'alba non verrà
con la forza dell'amore
sognavamo di suonare
più che per voglia per necessità

e le ore ad aspettare
che i tuoi si decidessero a partire
per rubare un po' di felicità
ma la forza dell'amore
non si fermerà.

E tornando la sera
dalle gite della scuola
sui sedili in fondo alla corriera
quando s'imparava a dire
le parole dell'amore
che nessuno a scuola mai insegnerà
e si cantava

No non è Francesca
No non è Francesca

È la forza dell'amore
per la forza dell'amore
con la forza dell'amore
è la forza dell'amore.

È la forza dell'amore
quella che non fa dormire
finché il sole non verrà
con la forza dell'amore
sognavamo di suonare
più che per voglia per necessità
e si cantava

No non è Francesca
No non è Francesca
No non è Francesca
0 mare nero, o mare nero
0 mare ne

No non è Francesca oh oh
è la forza dell'amore
per la forza dell'amore
con la forza dell'amore
è la forza dell'amore

precisei ouvir...

E depois do amor...

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

José Niza

Abril

Abril
Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.
Havia um vento
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer
pelo rosto das mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
pelas ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

Ardiam as palavras
Nesse mês
e foram vistos
dicionários a voar
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril que veio e que partiu.

Abril
a deixar sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver.

José Fanha, Lisboa, Portugal
(Do livro ainda inédito "Tempo azul")

quarta-feira, 22 de abril de 2009

"Mulheres Poema" ou "Esculturas Ambulantes"





Nos últimos 30 anos Beltrán encontrou 800 mulheres pelas ruas

Las Mujeres encontradas" de Fernando Beltrán.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Parabéns meu Amor



Se fazer anos é ficar mais experiente, mais velho, mais entendedor, se fazer anos é aumentar o apurar do gosto, é aprender a olhar para toda a gente nos olhos, sentir que se deu um passo adiante no caminho da evolução, sentir o mundo mais próximo, é ver uma flor e não pisá-la, se fazer anos é pensar em construir mais que destruir, é pensar em amar mais que odiar, é viver mais o agora, é amar cada vez mais, é equilibrar as emoções, se fazer anos é ainda tornares-te mais paciente, mais aberto a críticas, mais sortudo, mais cheio de poucos e verdadeiros amigos, se fazer anos é completar velhos ciclos e abrir novos, se é ter novas experiências, se é amar mais as crianças, aprender a apreciar detalhes, entender um pouco melhor os problemas da vida e o valor dos gestos, se é entender mais sobre o teu corpo, e com isso, aprender a respeitá-lo, e a dares-te com mais generosidade ao mundo e às pessoas, se é aprender a olhar o outro com mais compaixão e para ti mesmo com mais humildade, se fazer anos é não apagar, mas acender velas, iluminar corações, estradas, se fazer anos é aprender a viajar mais, a despires-te inteiro, se é aprender a ouvir música melhor, se é encontrar e reencontrar livros, se é festejar com os amigos queridos, se é relacionares-te com o teu amor com mais profundidade e entendimento, treinando a incondicionalidade do amor verdadeiro, ah se fazer anos é tudo isto, desejo muito meu querido filho, que apagues muitas e muitas velas...
E que por cada vela apagada se acenda uma luz no teu coração, e a espalhes pelo mundo. Esse é o maior voto de felicidade que te posso desejar meu amor.

OUR SONG
I Will Always Love You

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andersen

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Ilha das Palavras



ilustrações de Madalena Ghira
Agora, quando me faltarem as palavras de que preciso para nomear as coisas e os sentimentos que verdadeiramente contam na vida das pessoas, arranjo um barco e faço-me ao mar, na esperança de voltar a encontrar essa ilha que é diferente de todas as outras ilhas e que, às vezes, em noites prateadas pelo luar, basta ser nomeada para ganhar forma mesmo à nossa frente, ali ao alcance da mão, no mar de sons e de sentidos em que o tempo deixa de ter pressa, em que todos os sonhos podem ser realizados, em que a morte é apenas um capítulo que se fecha no livro das nossas vidas e em que navegam os barquinhos à vela das nossas ilusões perdidas, sempre em busca de um porto ou de uma ilha em que possa voltar ao princípio para que tudo volte de novo a ser possível, até a nossa felicidade."
José Jorge Letria

quinta-feira, 16 de abril de 2009

E o patinho feio era mesmo um Cisne...

Apesar de não ter dançado logo pela manhã o dia teve os seus brilhos...
meninos que acompanho há alguns anos (cresceram e estão lindos)... e fantásticos os professores que hoje tive o privilégio de receber na hora do conto...


depois relembrei este momento...


porque hoje ouvi Susan Boyle O CISNE


http://www.youtube.com/watch?v=9lp0IWv8QZY
impossível postar neste momento infelizmente, mas nada difícil para quem quiser dar uma espreitadela no YouTube

E se amanhã o dia começasse assim hmmm????




HMMMM...tão bom!!! Ok vou dormir e sonhar que sim...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Não esperes nunca de mim que eu seja fiel a qualidades que não tenho.
O que podes é contar com as que tenho, porque nessas não te falharei nunca."

[Miguel Sousa Tavares, in Equador]

Saudades

INCÊNDIO
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão

Al Berto, in «sem título e bastante breve e outros poemas»

AMO MAIS...

AMO...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Parque central










fotos Maria Joyce

Os olhos do poeta

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo, e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem. Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas, e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria, com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento. Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos, e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade: - todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta. Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório, sai uma estrela voando nas trevas tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes. E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.


e nos olhos dos meninos portugueses que aparecem de novo nas escolas e nos hospitais com fome...

...não era suposto dizer isto pois não?????

Ary...poeta de Abril

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Vagabundo na Esplanada

O vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo.
Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisola interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada, aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta.
Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade.
Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade.
Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelos simples motivo de ter mais e melhor em que pensar.
O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada disso lhes acontecia.
Num instante, embora se desconhecessem, aliviava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fomes que o homem havia de sofrer. No entanto alguém disse:
– Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade.
E assim resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas.
Sem dar por tal, o homem seguia adiante.
Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscienciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de Verão.
A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler.
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: "Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!" Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
– Não pode...
E calou-se. O homem olhava-o com benevolência.
– Disse?
– É reservado o direito de admissão – tornou o rapaz, hesitando. – Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
– Que direito vem a ser esse?
– Bem... – volveu o empregado. – A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
– E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
– Talvez que a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. – Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
– Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.

Manuel da Fonseca

sábado, 11 de abril de 2009