sábado, 20 de março de 2010

UM PAI EM NASCIMENTO



Porque ontem foi dia do pai,
porque é um livro de crónicas sobre Pais e Filhos,
porque é o último de José Eduardo Agualusa!

quinta-feira, 18 de março de 2010

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?

Su Dong Po

ROKIA TRAORÉ DOUNIA



Caramba que isto é BOM mesmo MUITO BOM...

quarta-feira, 17 de março de 2010

BEAUTIFUL DAY



Apeteceu-me...

ESCREVER A GIZ NO SOL

Encontrei as palavras para todos
Os meus pensamentos - excepto Um -
E isso - é um desafio para mim -
Como escrever a giz no Sol



Emily Dickinson

domingo, 14 de março de 2010

Mais sábios que os homens são os pássaros. Enfrentam as tempestades noturnas, tombam dos seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram as suas histórias. Pela manhã, têm todos os motivos para se entristecerem e reclamarem, mas cantam agradecendo a Deus por mais um dia. E vocês, portadores de nobres inteligências, que fazem com as vossas perdas ?

" Augusto Cury in "A Saga de um Pensador"

sábado, 13 de março de 2010

Andrew Bird


"...ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente ..."(Van Gogh)

quinta-feira, 11 de março de 2010

A luavezinha

Minha filha tem um adormecer custoso. Ninguém sabe os medos que o sono acorda nela. Cada noite sou chamado a pai e invento-lhe um embalo. Desse encargo me saio sempre mal. Já vou pontuando fim na história quando ela me pede mais:

- “E depois?”

O que Rita quer é que o mundo inteiro seja adormecido. E ela sempre argumenta um sonho de encontro ao sono: quer ser lua. A menina quer luarejar e, os dois, faz contarmo-nos assim, eu terra, ela lua. As tradições moçambicanas ainda lhe aumentam o namoro lunar. A menina ouve, em plena verdade da rua: "olha os cornos da lua estão para baixo: vai cair a chuva que a lua guarda na barriga".

Me deu, um destes dias, a ideia de lhe contar uma estorinha para fazer pousar o sonho dela. E desencorajar seus infindáveis “e depois”. Lhe inventei a estória que agora vos conto.

Era uma avezita que sonhava em seu poleirinho. Olhava o luar e fazia subir fantasias pelo céu. Seu sonho se imensidava:

- “Hei-de pousar lá, na lua”.

Os outros lhe chamavam à térrea realidade. Mas o passarinho devaneava, insistonto: vou subir lá, mais acima que os firmamentos. Seus colegas de galho se riram: aquilo não passava de menineira. Todos sabiam: não havia voo que bastasse para vencer aquela distancia. Mas o passarinho sonhador não se compadecia. Ele queria luarar-se. Pelo que o tudo ficava nada.

Certa noite, de lua inteira, ele se lançou nos céus, cheio de sonho. E voou, voou, voou. Perdeu conta do tempo. Em certo momento ele não sabia se subia, se tombava. Seus sentidos se enrolaram uns nos outros. Desmaiou? Ou sonhou que sonhava? Certo é que seu corpo foi sacudido pelo embute de um outro corpo.

E pousou naquela terra da lua, imensa savana pétrea. A ave contemplou aquela extensão de luz e ficou esperando a noite para adormecer. Mas noite nenhuma chegou. Na lua não faz dia nem noite. É sempre luz. E o pássaro cansado de sua vigília quis voltar à terra. Bateu as asas mas não viu seu corpo se suspender. As asas se tinham convertido em luar. Com o bico desalisou as penas. Mas penas já nem eram: agora, simples reflexos, rebrilhos de um sol coado. O pássaro lançou seu grito, esses que deflagrava antes de se erguer nos céus. Mas sua voz ficou na intenção. A ave estava emudecida. Porque na lua o céu é quase pouco. E sem céu não existe canto.

Triste, ela chorou. Mas as lágrimas não escorreram. Ficaram pedrinhas na berma da pálpebra, cristais de prata. A avezita estava cativa da lua, aprisionada em seu próprio sonho. Foi então que ela escutou uma voz feita de ecos. Era a própria carne da lua falando:

- “Eu sonhei que tu vinhas cantar-me.
- “E porquê me sonhaste?
- “Porque aqui não há voz vivente.
- “Eu também sonhei que haveria de pousar em ti.
- “Eu sei. Agora vais cantar em luar. Eu sonhei assim e nenhum sonho é mais forte que o meu”.

É assim que ainda hoje se vê, lá na prata da lua, a pupila estrelinhada do passarinho sonhador. E nenhuma criatura, a não ser a noite, escuta o canto da avezinha enluarada. Sobre as primeiras folhas da madrugada, tombam gotas de cacimbo. São lagriminhas do pássaro que sonhou pousar na lua.

- “E depois, pai?”


Mia Couto in "Contos do nascer da terra"

Pelo caminho dos sonhos...

..."Numa das noites, os seus olhos já mais fechados do que abertos, fixaram-se na lua. Estava cheia, redonda, perfeita. Por uns segundos sentiu-se bem a olhá-la assim. Não havia mais nada na noite: apenas ele e a lua. Quando adormeceu, viu que a lua ia crescendo, crescendo e se aproximava de si, insegura, trémula como uma bola de sabão. Começou a ver ao perto todos os desenhos que há na lua e que sempre vira, indecifráveis, ao longe. Era a lua da sua aldeia. Era a mesma que, de tempos a tempos, desaparecia por uns dias e depois voltava e ia crescendo até ficar como a via agora e como na realidade é. Era a mesma lua que dava profundidade aos uivos dos animais, corpo à noite e desenhava a sombra dos que caminhavam na noite.
Começou a ver claramente as suas montanhas de prata e as crateras onde podia jogar às escondidas com Rashid. Pensava todas estas coisas quando Rashid surgiu imprevistamente de uma cratera com o seu sorriso de alquimista de sonhos e lhe saiu ao caminho para o assustar. Bashu não se assustou, porque nenhum medo ou susto podia quebrar o encantamento e a alegria de rever Rashid.
-Não achas que o mundo seria melhor se não houvesse homens?
- Não, Rashid, porque se não houvesse homens não havia mundo. Só havia coisas sem nome.
- Não havia mal...
- Nem bem, Rashid. Só havia coisas sem nome.
-E para que precisamos do nome das coisas?
- Para chamá-las, Rashid.
E começaram a correr entre as crateras e a brincar como se fosse a primeira vez que brincavam. construíram pontes, baloiços e espantalhos. Jogaram às pedrinhas. tomaram banho nas crateras onde havia uma água tão límpida que não parecia água, parecia luz. Conversaram, inventaram histórias, desenharam árvores. Ouviram o uivar dos lobos. Seguiram as sombras que caminhavam sozinhas. Tocaram música num alaúde. Inventaram brinquedos novos e palavras novas para os chamar. Subiram pelos braços da lua e tocaram a sua face bela. Trocaram de sítio uma bandeira que encontraram e cujas estrelas se tinham apagado. Colheram narcisos e outras flores com foice de prata que há na lua.
E foi quando estavam na montanha mais alta da lua que ela começou a diminuir de tal maneira que deslizaram vertiginosamente pela encosta até chegarem à planície. Mas as próprias montanhas desapareciam à medida que a lua diminuía. Rashid e Bashu abraçaram-se, não por medo mas de alegria, pois sabiam que nada de mal lhes ia acontecer. Quando todo o espaço tinha desaparecido, Bashu acordou e ficou muito tempo a olhar os movimentos da floresta sem vontade nenhuma de levantar-se e caminhar.
Pensava como era diferente o tempo na lua e como era diferente a vida na companhia de Rashid. E como lhe apetecia voltar para trás, pelo caminho dos sonhos.
- Porque morrem os sonhos?"...


Excerto do livro "O CRESCER DAS ÁRVORES" de NUNO IGINO

segunda-feira, 8 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um pedacinho de sonho ...

Porque impede o tempo, atrasa a ruga e tenho saudades de me estender na areia, sentir a terra enamorar-se de mim e no meu silêncio, escutar-lhe o mar sob a pele do chão e tirar vantagens desses silêncios submarinos. Sou dele, do mar e tenho saudades...
Mar que quero!

(…) “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar. (…)
Mia Couto
Mar me Quer