sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Não se apaga nunca...

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mário Quintana

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

SERÁ...

Será que ainda me resta tempo
contigo,
ou já te levam balas de um qualquer
inimigo.
Será que soube dar-te tudo o que
querias,
ou deixei-me morrer lento, no lento
morrer dos dias.
Será que fiz tudo que podia fazer,
ou fui mais um cobarde, não quis ver
sofrer.
Será que lá longe ainda o céu é azul,
ou já o negro cinzento confunde Norte
com Sul.
Será que a tua pele ainda é macia,
ou é a mão que me treme, sem ardor
nem magia.
Será que ainda te posso valer,
ou já a noite descobre a dor que
encobre o prazer.
Será que é de febre este fogo,
este grito cruel que da lebre faz lobo.
Será que amanhã ainda existe para ti,
ou ao ver-te nos olhos te beijei e
morri.
Será que lá fora os carros passam
ainda,
ou estrelas caíram e qualquer sorte é
benvinda.
Será que a cidade ainda está como
dantes
ou cantam fantasmas e bailam
gigantes.
Será que o sol se põe do lado do mar,
ou a luz que me agarra é sombra de
luar.
Será que as casas cantam e as pedras
do chão,
ou calou-se a montanha, rendeu-se o
vulcão.
Será que sabes que hoje é domingo,
ou os dias não passam, são anjos
caindo.
Será que me consegues ouvir
ou é tempo que pedes quando tentas
sorrir.
Será que sabes que te trago na voz,
que o teu mundo é o meu mundo e foi
feito por nós.
Será que te lembras da cor do olhar
quando juntos a noite não quer acabar.
Será que sentes esta mão que te agarra
que te prende com a força do mar
contra a barra.
Será que consegues ouvir-me dizer
que te amo tanto quanto noutro dia
qualquer.
Eu sei que tu estarás sempre por mim
não há noite sem dia, nem dia sem fim.
Eu sei que me queres, e me amas
também
me desejas agora como nunca
ninguém.
Não partas então, não me deixes
sozinho
Vou beijar o teu chão e chorar o
caminho.
Será,
Será,
Será!

Pedro Abrunhosa
in "Tempo" - Fevereiro 2002



REBECCA DAUTREMER "CYRANO" e "OS APAIXONADOS"


Fiz-me ao mar com lua cheia
a esse mar de ruas e cafés
com vagas de olhos a rolar
que nem me viam no convés
tão cegas no seu vogar
e assim fui na monção
perdido na imensidão
deparei com uma ilha
uma pequena maravilha
meia submersa
resistindo à toada
deu-me dois dedos de conversa
já cheia de andar calada

tinha um olhar acanhado
e uma blusa azul-grená
com o botão desapertado
e por dentro tão ousado
um peito sem soutien
ancoramos num rochedo
sacudimos o sal e o medo
falamos de musica e cinema
lia Fernando Pessoa
e às vezes também fazia um poema

e no cabelo vi-lhe conchas
e na boca uma pérola a brilhar
despiu o olhar de defesa
pôs-me o mapa sobre a mesa
deu-me conta dessas ilhas
arquipélagos ao luar
com os areais estendidos
contra a cegueira do mar
esperando veleiros perdidos



Carlos Tê
in "Guardador de margens - Rui Veloso" - Dezembro 2001

Porque não me vês
Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sózinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
Porque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono

Fausto
in "Por este rio acima" - Janeiro 2002

Gosto tanto

Gosto de espreitar o teu sono de criança, á noite, quando dormes alheio a tudo, e eu fico a ouvir a tua respiração e a alisar os teus cabelos. Às vezes, chego a pensar que é um desperdício ir dormir, em lugar de ficar a ver-te dormir, porque o tempo voa e em breve já não serás criança.

in Não te deixarei morrer, David Crockett de Miguel Sousa Tavares

Os mimos...




segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”,

Esperança embrulhada a Preto e Branco 20-01-09/21-01-09





WE ARE ONE!!!!!
TENHO ESPERANÇA !!!!

Perto muito perto de completar mais um aniversário, embalada pela voz de Bruce Springstin, Mary Jay Blige, Betty Lavette, John Bon Jovi, John Mellencamp, o meu sempre querido James Tayler, Herbby Hancock, Sheryl Crow, os grandes U2 com "IN A NAME OF LOVE" Pete Seeger, Beyonce e tantos outros, numa mistura divina de sons negros e brancos de sonho ...
Recebo "A Prenda" a mais bela prenda que algum dia imaginei receber...
Esperança embrulhada a preto e branco...

que o Futuro nos traga a todos e especialmente aos nossos filhos um Mundo bem melhor...

Martin Luther King um dia sonhou...
Começaria assim o seu sonho?

Que este seja o primeiro de muitos dias com esperança num futuro melhor Sr Presidente...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Penso:

talvez haja uma luz dentro dos homens,
talvez uma claridade,
talvez os homens não sejam feitos de escuridão,
talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens
e talvez os homens sejam as certezas que possuem.

in Nenhum olhar de José Luís Peixoto

Branco/Azul... 3

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ELEGÂNCIA...

A ELEGÂNCIA NO COMPORTAMENTO
Martha Medeiros

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres ou dizer um simples obrigado.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas… quando não há nenhum fotógrafo por perto.

É possível vê-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam….
Nas pessoas que escutam mais do que falam….
E quando falam, passam longe da fofoca e das maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo.
Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas…

Oferecer flores é sempre elegante…
É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais o saber…

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro….
É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante retribuir carinho e solidariedade. É elegante o silêncio, diante de uma rejeição…

Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.

Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma…
Olhar nos olhos, ao conversar é essencialmente elegante…

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo.

A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os desafetos é que não irão desfrutá-la.