sexta-feira, 30 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Monangamba

Naquela roça grande não tem chuva

é o suor do meu rosto que rega as plantações:



Naquela roça grande tem café maduro

e aquele vermelho-cereja

são gotas do meu sangue feitas seiva.



O café vai ser torrado

pisado, torturado,

vai ficar negro, negro da cor do contratado.



Negro da cor do contratado!



Perguntem às aves que cantam,

aos regatos de alegre serpentear

e ao vento forte do sertão:





Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?

Quem traz pela estrada longa

a tipóia ou o cacho de dendém?

Quem capina e em paga recebe desdém

fuba podre, peixe podre,

panos ruins, cinqüenta angolares

"porrada se refilares"?



Quem?



Quem faz o milho crescer

e os laranjais florescer

- Quem?



Quem dá dinheiro para o patrão comprar

maquinas, carros, senhoras

e cabeças de pretos para os motores?



Quem faz o branco prosperar,

ter barriga grande - ter dinheiro?

- Quem?



E as aves que cantam,

os regatos de alegre serpentear

e o vento forte do sertão

responderão:

- "Monangambééé..."



Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras

Deixem-me beber maruvo, maruvo

e esquecer diluído nas minhas bebedeiras



- "Monangambééé..."



Para ouvir a versão de Rui Mingas: http://duouronegro.com.sapo.pt/musicafricana.html

sexta-feira, 9 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Foi ontem...fica aqui hoje!

“Se na infância já éramos o que agora somos (Matilde já lia poemas e histórias à sua laranjeira, aos pássaros e às formigas) também na idade adulta somos aqueles que fomos. O tempo faz de nós pessoas idosas, mas, na verdade, mudamos pouco.” Matilde, quase nada.

Palavras de Álvaro de Magalhães para Matilde Rosa Araújo

apetecia-me deixar aqui todos, todos mesmo, porque são assim magníficos os seus contos...prometo lê-los e contá-los a quantos quiserem ouvir. Matilde viverá em cada conto lido em cada conto contado!


O MENINO DOS PÉS FRIOS

Era uma vez uma casa. Muito grande. Com um tecto altíssimo, nem sempre azul. Uma casa enorme onde habitava uma grande família: uma família tão grande que, por vezes, não julgavam os seus membros que se conheciam. E se deviam amar.
Houve um menino que entrou nesta casa estava ela toda branca. No chão tapetes de neve, cristais de água de uma brancura que estremecia. E as próprias árvores escorriam essa brancura. E frio. Iluminava-a uma estrela tão brilhante que, sobre o tecto, parecia que poisava sobre as nossas mãos.
Ora um dia, em que fazia anos em que esse menino entrara nessa casa, outro menino por ela andava com frio. Pelo chão, pelos milhões de cristais, caminhavam os seus pezitos enregelados. Tanto frio que nem podia
olhar a estrela brilhante. Nem os milhões de cristais que pisava.
Uma mulher chorava a um canto dessa casa. E era triste essa mulher. Estava triste e cansada. Na casa nem tudo era belo. Ali estava aquele menino cheio de frio. E, como ele, tantos meninos.
E, já há quase dois mil anos, um menino entrara na casa, que ficou mais clara com a luz brilhante do tecto. O menino entrou só para dizer uma palavra pequenina: AMOR.
Então essa mulher perguntou ao menino dos pés frios:
– Tu não tens a tua casa?
O menino olhou a mulher triste e ficou triste. Ambos estavam tristes. E disse quase envergonhado que não.
– Tu não tens roupa? Sapatos? Um lume? Pão?
A cabeça (tão linda!) do menino ia abanando sempre a dizer não. A mulher triste começou a ter vergonha.
Então ela consentia que na sua casa, na casa de todos, de tecto nem sempre azul, houvesse um menino sem roupa, sem lume, sem pão? Ela consentia uma coisa assim? E os outros também?
Escorregaram-lhe pela face já enrugada duas lágrimas transparentes. De água. Água como a que tombava do tecto, como a que se estendia nos mares.
E perguntou mais ao menino:
– E para onde vais? Eu dou-te qualquer coisa para o caminho...
O menino olhou para ela admirado. Não lhe disse para onde ia. Observou-lhe apenas:
– Tens duas gotas de água nos teus olhos que reflectem o céu azul e a lâmpada do tecto. Não sentes?
A mulher deixou cair pelo rosto enrugado as duas lágrimas. A pele, então, ficou-lhe mais lisa. E ela tornou-se menos curva. Ergueu-se. Estendeu, sorrindo, os dois braços ao menino. E disse:
– Fica. Perdoa.
E o menino ficou. Nos seus braços. Encostado ao seu peito. Com os pés aquecidos sobre o campo de neve.
E a mulher entendeu que não adiantava chorar ao canto da casa. E o seu vestido era uma bandeira. E o seu coração uma flor. Com o menino a seu lado.

Algarve

"Magia" A Casa Encantada

sexta-feira, 2 de julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010