sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Feita num i...

Hoje tou assim...




fazer o quê!

UMA HISTÓRIA DE ELEVADO INTERESSE HUMANO!

Já me tinha despedido na ânsia de começar o FDS...
mas não posso deixar passar isto!


TODOS OS SERES HUMANOS DEVERIAM VIVER COMO ESTA BOA E ADORÁVEL MULHER!
QUASE NO FINAL DA PRÁTICA DOMINICAL O SACERDOTE PERGUNTOU AOS FIEIS, NA IGREJA: "QUANTOS DE VOCÊS CONSEGUIRAM PERDOAR OS VOSSOS INIMIGOS?"
A MAIORIA LEVANTOU A MÃO. O SACERDOTE VOLTOU A REPETIR A MESMA PERGUNTA E ENTÃO TODOS LEVANTARAM A MÃO MENOS UMA PEQUENA E FRÁGIL VELHINHA.

"SENHORA MARIAZINHA? A SENHORA NÃO ESTÁ DISPOSTA A PERDOAR AS SUAS INIMIGAS?"
"EU NÃO TENHO INIMIGOS!" RESPONDEU ELA, DOCEMENTE.
"SENHORA MARIAZINHA, ISTO É MUITO RARO!" DISSE O SACERDOTE.
E PERGUNTOU: "QUANTOS ANOS TEM A SENHORA?
E ELA RESPONDEU: "98 ANOS!"
O PÚBLICO PRESENTE NA IGREJA LEVANTOU-SE E APLAUDIU A IDOSA, ENTUSIASTICAMENTE.
"DOCE SENHORA MARIAZINHA, CONTE PARA TODOS NÓS COMO SE VIVE 98 ANOS E NÃO SE TEM INIMIGOS?"
A DOCE E ANGELICAL VELHINHA DIRIGE-SE AO ALTAR E DIZ EM TOM SOLENE, OLHANDO PARA O PÚBLICO EMOCIONADO:
"PORQUE JÁ MORRERAM TODOS, AQUELES FILHOS DA ...!"


Agora é que é
Bom FDS

Há dias assim...

Pois há...
hoje estou literalmente assim!
Semaninha CHEIAAAAAAAAA
Sorte, sorte é ter o FDS à porta...
e promete...

UFFFFFFFFFFFF




Bom FDS

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lá...

Leva-me os olhos, gaivota,
e deixa-os cair lá longe naquela ilha sem rota...

Lá...
onde os cravos e os jasmins
nunca se repetem nos jardins...

Lá...
onde nunca a mesma aranha tece a mesma teia
na mesma escuridão das mesmas casas...

Lá...
onde toda a noite canta uma sereia
...e a lua tem asas...

Lá...

José Gomes Ferreira

terça-feira, 27 de outubro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eternidade...

Ofélia e a eternidade



Quem amamos nasce antes de haver o tempo.
Passou o tempo e Ofélia era ainda a única mulher no mundo. Eu a via passar na rua, afastava os cortinados e o universo ganhava súbita explição. Ela parava no passeio, sentindo que estava sendo contemplada. Meus olhos a tornavam sagrada. E não havia palavra.
Passou o tempo mas a cintura dela se conservava menininha, convidando as mãos a circum-navegarem seu corpo.
-Você é linda, Ofélia.
Mas ela! Não eram essas as palavras que mexiam em sua alma.
-Diga que sou eterna-pedia.
Eu não era capaz de cumprir aquele pedido. Algum senão me desviava a voz. E nunca repeti tão solicitadas palavras.
Afinal, o destino nos separou. Único culpado dessa pequena morte: o tempo, esse animal que defeca memórias. Eu fui para a cidade, ela permaneceu onde sempre existira. No último momento, afastei a cortina e a vi sob a árvore. Saí para me despedir:
-Está apanhando sombra?
-Estou sendo sombra, eu.
Ela se entregava a enigmas, frases desfeitas. Anunciei:
-Vou para o litoral.
-Vai ver o mar?
-Certamente.

Antes de eu desaparecer ela me pediu outra vez.
Não queria eu proclamar sua eternidade?
Abanei a cabeça. Dessa vez até aceitei um esforço. Mas, debaldemente. Aquelas palavras me pareciam uma heresia, coisa demasiado excessiva. Eternidade é assunto divino. Mais sagrado que a morte.
Saí por anos. Foi mais a ausência que o afastamento. Regressei à pequena vila para a reencontrar. Ofélia já reeditara sua existência. Tivera seis filhos. Dois que já não constavam, vencidos por um correr de águas. Dizem. Naquelas mortes de seus meninos ela morrera também. Ela fora com eles. Para esse inominável lá.
-De lá já voltei ninguém- disse ela, pedindo desculpas de sua tristeza quando nos reencontrámos. Atacada de incorrigível melancolia. Agora, ela se tinha toda convertido em sombra. E nenhuma luz lhe dava alento. O luto em seus olhos me avisou: os cortinados de meu quarto se fechariam sobre todas as ruas onde ela passasse.
Sugeri-lhe que nos déssemos encontro. Breve, sem consequência. Marcámos nas traseiras dos Correios. Cheguei-me e não soube que palavras escolher.
O momento pedia-me um idioma que não há. Eu me faltava. Ela me olhou como se eu fosse quem tivesse demorado. como se eu fosse culpado.
- Vou-lhe contar uma história-disse eu apenas para amachucar o silêncio.
Ela reagiu prontamente:
- Nunca, mas nunca, me conte histórias.
Era tanta a veemência que eu me atrapalhei com o seu-querer da minha ofensa.
- Odeio história-rematou ela.
Deixou uma pausa, esperando em pose e apelo.
Aguardava, quem sabe, que eu perguntasse porquê.
Como eu me mantivesse mudo, ela somou:
-História é contra a eternidade.
Acenei com a cabeça. Perdera os filhos, não perdera aquela viciada ideia.
-Sou eterna, não lembra?
Depois ela me segurou na mão e me perguntou:
-Me trouxe um mar?
-Sim.

Mentira. Eu só podia mentir perante o pedido. Ela ficou, imóvel, esperando. Esperava? Que mar lhe havia eu de dar, se nenhum me coubera, nem grão de areia, nem concha, nem búzio. E, no entanto, ela estava defronte a mim como se aquele momento resumisse toda a nossa existência. Fiquei tão desarmado que uma lágrima desaflorou em meus olhos. Depois aconteceu, sem decisão pensada. Aquilo me saiu, à parte de minha vontade. De repente, quase imperceptíveis, as palavras me afluíram:
- Você é eterna, Ofélia.
Ela levantou o rosto e me enfrentou como se me descobrisse em primeira vez. Se aproximou e me beijou. Estendeu os dedos e recolheu esse esboço de água em meus olhos. Depois, com voz sumida:
- Obrigada por este mar.
Desde aquele momento, nunca mais voltaram a morrer seus dois filhos falecidos.
Que eu diria: meus dois filhos de lá.
Porque sou Ofélia, eu mesmo que desfolho esta estória. Sim sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar. O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar.



Mia Couto

Na Berma de Nenhuma Estrada

sábado, 24 de outubro de 2009


Era uma vez um país
na ponta do fim do mundo
onde o mar não tinha eco
onde o céu não tinha fundo
onde longe longe longe
mais longe que a ventania
mais longe que a flor da sombra
ou a flor da maresia
em sete lagos de pedra
sete castelos de nuvens
em sete cristais de gelo
uma princesa vivia

Era uma vez
na ponta do fim do mundo
onde o mar não tinha eco
onde o céu não tinha fundo
onde longe longe longe
mais longe que a luz do dia
com a sua coroa de abetos
e seus anéis de silêncio
suas sandálias de tempo
seu tear de nostalgia
uma princesa tecia
o seu tapete de espanto
no fio da fantasia
do seu casulo de encanto

(Ary dos Santos 1937-1984)


"Poesia é um encontro raro de palavras"
Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

E tínhamos tanto para olhar...


...éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso.
E tínhamos tanto para olhar...


Justine Brax

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Amor dos outros - Revista Notícias Sábado 197

O amor dos outros

...
As pessoas estão a fazer tantas coisas para alcançar o que dizem ser «a felicidade» ou só a satisfação, que me dá a impressão de ver cada vez mais gente sozinha.
Há tanto artifício para «encontrar o amor» que dificilmente o encontrarão. Deve ser por isso que ainda vejo velhotes a passear de mão dada na rua e casais novos de passo desencontrado onde quer que seja.
A fartura sempre me deixou confusa. Uma mesa demasiado cheia tira-me o apetite. Um restaurante com demasiados pratos no cardápio, baralha-me. Eu adoro ir aos sítios onde até nos dizem de cor o que há. E, sabem, é às vezes no meio de quatro pratos que eu nunca comeria, que descubro um paladar que me conquista.
No amor também é assim. Ou talvez seja eu que sou assim. Os homens com demasiadas mulheres em volta estão miseravelmente sozinhos. As mulheres que jogam em várias frentes comem sozinhas à noite refeições aquecidas no microondas.
(...)
… vivam o amor em estado puro, com dor (mas no peito) e deixem-se das porcarias que vêem nos filmes e na net.O amor é para sentir, não é para mascarar. E quem tem medo de o viver é porque não o merece.

Oh god, make me good, but not yet

Cidália Dias, in “O Sexo e a Cidade” – Revista NS 197



Ah, leiam também o artigo de Ferreira Fernandes (pag 6) da mesma revista
acreditem vale mesmo a pena...e deixem por favor de me enviar mails sobre o tema...

Chegou mesmo?...



Lilli Gribouillon
As cores, essas, já moram aqui
e dentro de mim...
Será que sim,
Que o Outono chegou enfim?...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Piece by piece

5º Encontro de Jazz Além Tejo


O 5.º Encontro de Jazz Além Tejo, é uma proposta da QUADRICULTURA.


Desta vez começa mais cedo...

do Auditório da ESPAM ao Auditório ANTÓNIO CHAÍNHO em Santiago do Cacém, passando pelas Bibliotecas de Vila Nova de Santo André e de Santiago do Cacém.

Isto sem esquecer as Jam Sessions da Lagoa de Santo André, e os Workshops nas Escolas.


de 24 a 31 de Outubro

domingo, 18 de outubro de 2009

TCK TCK TCK Pela nossa Terra







Aqui está ele, o vídeo da campanha lançada pelo Fórum Humanitário Global "Beds Are Burning", que pretende promover a maior petição de sempre online no sentido de influenciar as negociações da COP15 que terão início a 6 de Dezembro, em Copenhaga.

Música originalmente escrita, e agora reescrita, por Peter Garrett, antigo vocalista dos Midnight Oil e actual ministro do Ambiente da Austrália.

Vamos lá então participar...
é que às vezes há sonhos, lutas, acreditares,
que viram milagre...
e já agora, porque não acreditar mesmo que é possível um mundo melhor?

THE TIME HAS COME...

sábado, 17 de outubro de 2009

Conto com sons e magia



Foi hoje na BMSA e foi bonito...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Prémio Manuel da Fonseca 2008




HOJE NA BMSC


"Breviário das Almas", de Joaquim Mestre, foi a obra vencedora da edição 2008 deste prémio. Editada pela Oficina do Livro com o apoio da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, é apresentada no dia 15 de Outubro, pelas 21h00, na Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca.

A apresentação vai contar com a presença do jornalista Carlos Pinto Coelho e da contadora de histórias da Biblioteca de Beja, Cristina Taquelim.






"Breviário das Almas" apresenta-nos várias histórias de amor. Ou uma história de amor, depende de quem lê. Partidas e regressos, recordações deixadas em casas por onde se passa, gente com quem nos cruzamos ao longo do caminho.


Mas também a memória do primeiro amor, a tristeza de um filho que não voltou da guerra, a alegria do nascimento ou o regresso a um lugar onde fomos felizes, recriando um universo literário original, imenso e poético.


Depois dos romances "O Perfumista" e "A Imperfeição do Amor", Joaquim Mestre recupera um mundo de magia, com histórias que permanecerão na memória do leitor que obtiveram o consenso do júri do Prémio Manuel da Fonseca.


Joaquim Mestre nasceu em Trindade, concelho de Beja. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e fez ainda uma pós-graduação em Ciências Documentais.

Viveu no Alentejo, ermo a que alguns chamam a sua casa e onde as pessoas andam com o sol nas mãos e lonjura no olhar.

Há sempre alguém que não desiste...



Amoroso,
vale a pena ver...

Garth Brooks






Pois é, voltei mesmo a ouvir country... e sabe-me tão bem!

Darius Rucker



Tão tão bonito...com os Hootie & the Blowfish




Surpreendentemente voltou-se para o country
e assim com Darius Rucker voltou um gosto antigo...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ksenia Simonova





As imagens em sequência, da artista Ucraniana de 24 anos, descrevem personagens e acontecimentos, durante a Segunda Guerra Mundial em que quase um quarto da população foi morta.

Em frente à câmara ela lembrou cenas diversas que fazem parte da "sua" história, utilizando todo o seu talento nesta nova forma de expressão plástica, que é o desenhar com areia sobre vidro.

Kseniya Simonova terminou a sua apresentação escrevendo: "Vocês estão sempre junto de nós"!
«Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer»

DE UM FOLEGO SÓ...

Todos têm medo do silêncio e da solidão ...
...eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.

A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio".

«Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.»

«Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imenso e tão forte que era só nosso e nós mesmos não falávamos disso, mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segredo que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. E que qualquer frase, qualquer palavra, se arriscaria a quebrar esse sortilégio.»


...talvez tivesse medo de estragar a lembrança desses longínquos dias, medo de mover, para melhor expor as coisas, essa fina camada de pó onde repousa, apenas adormecida, a memória dos dias felizes.”

No teu deserto
Miguel Sousa Tavares

terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009









Belle...
la palabra se inventó para su piel
al mover su cuerpo, matarás por él
volar de un ave que me hace estremecer
todo el infierno se abrirá a mis pies
a su vestido tiembla la sensualidad
De qué me servirá rezar a Notre Dame?
que tire la primera piedra
al escapar
porque ese hombre no podrá vivir en paz.
oh, Lucifer, déjame por una vez
acariciar ahora el pelo de Esmeralda...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009




Então.... a sua doçura transmite-se pelo silêncio.
O silêncio do seu carácter morno e compreensivo...

Os anjos também gostam de estórias...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Baby I love your way

SE AO MENOS A CHUVA

Andava às voltas
no topo de si mesmo
e do monte.
Trepara a encosta
como em pequeno
trepava às árvores:
para ver melhor.

Vivia tão longe da água
que tinha a boca seca.

Agora andava às voltas
cheio de sede
a esgotar-se, a suar:

Porque não paras?,
perguntar-lhe-ia, se pudesse
entrar neste poema.


Não havia nada no cimo de si
nem do monte
- apenas o azul e algumas aves
que respiram mais alto.

A cidade ficava a meio caminho
entre o céu e a terra
(o céu lá para cima, ainda depois do monte,
terra cá para baixo, um pouco antes da sede).

Ele andava às voltas com a vida:
atirava-lhe pedras, gritava
(se ao menos a chuva! se ao menos a chuva!)
como quem não encontra.

Só mais tarde entendi o que procurava:
um mar.

( Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)




fio de alma que nos transporta ao mais fundo de nós...



POSSO ESCREVER OS VERSOS...


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda
Tradução de Fernando Assis Pacheco.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Os que passam por nós...

"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

(Antoine de Saint-Exupéry)

Brilhos...


Semente



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Folhas...brilhos...inspiração...hora do conto...





"As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras."


ebulição, agitação, inquietação, desassossego,
sonho, livro, contos, semente,
floresta,folhas, brilhos,
mil e uma ideias...
depois conto.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rifa-se um coração quase novo.

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconsequente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...Um sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
- "O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconsequente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector




PARA TI

[Mia Couto]


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre


Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Estória sem tempo

Da infância de cada um, ficam sempre pequenas "grandes" coisas gravadas na memória. O lugar onde crescemos, as cores, os cheiros, as pessoas, os sabores, os sons...Memórias que nos abraçam para o resto da vida e que quase sempre nos deixam nostalgia e um sorriso no rosto quando nos lembramos delas. Ao ler "Os da minha rua" de Ondjaki voltei a África, e à minha rua...foi tempo de voltar a ser menina, "maria-rapaz", carregada de sonhos, a subir a rua de bicicleta e descê-la de carrinho de rolamentos, calçar os patins e rodopiar horas a fio, entre quedas, risadas, voltas, derrapagens e saltos mirabolantes que nos transportavam sempre para novas brincadeiras...e era então que surgia o "Mata", o "Trouxa-lavada" o "Tau" , e o "Ping-pong" onde era rainha... dona e senhora de grandes feitos que sabia eu deixavam no pai um olhar maroto cheio de orgulho e na mãe uma pena imensa por me ver gostar tanto de rua. Acho até que a determinada altura minha mãe vivia amargurada temendo que sua única menina em nada seguisse seus exemplos femininos e sim a galfarronice dos três irmãos, verdadeiros inventores das mais loucas e bizarras brincadeiras... como as gincanas ao km 2 da estrada que cortava o deserto Namibe/Porto-Alexandre...e aí sim, era a valer...saíamos manhã cedinho, aos três por bicicleta, arcos e ganchetas (bem artilhados no dia anterior), e muito agarradinhos, não fossem chegar ao deserto com alguma avaria. Depois, depois era ver reunidos todos "Os da minha rua", num louco e alegre comboio a caminho da pista já desenhada nas areias do deserto, cheia de lombas e lombinhas, ser palco das mais divertidas gincanas, com arcos pelo ar, quedas pelo meio, gancheta para um lado, arco para o outro, joelhos raspados e muita risada pelo meio... ah e ainda, com direito a prémios e tudo... Trago esse tempo sem horas, que me deu a infância mais feliz do mundo, sempre comigo, e hoje mais do que nunca, voltei, e senti os cheiros as cores os sabores e os sons d`Os da minha Rua, e do meu Chão.Obrigada Ondjaki

com carinho
aos meninos do Namibe
e a todos os amigos da minha rua...

A IDA AO NAMIBE


Cathy Delanssay

Fomos num avião bem pequenino. Íamos passar quinze dias noutra província. Era o sítio onde tinha nascido o meu pai: chama-se Namibe. O meu avô disse-me que se chamava Moçâmedes.
Para mim os nomes não interessavam muito. O que me deixava mais curioso é que me disseram que lá havia um deserto, e eu já tinha aprendido na escola que era a província de Angola que tinha avestruzes que corriam bué rápido, tinha gazelas e a famosa Welwitchia mirabilis, a planta mais bonita de todos os desertos do mundo.
Quando saímos do avião já fazia bué de frio. Estávamos no mês de Agosto, mês do Cacimbo para todas as crianças que gostam de sentir aquela geada das cinco da tarde, e mês das piores crises de asma para mim. Mas aquela província era tão bonita e gostei tanto de ter passado aquelas duas semanas na casa do primo Beto que nem tive nenhuma crise. Foi muito bom conhecer a província do Namibe.
Os dois primeiros dias ficámos na cidade, na casa desse primo do meu pai chamado Beto. Como toda a gente lhe chamava "primo Beto", eu também cheguei na sala e chamei-lhe de primo Beto. Todos os mais velhos riram, só a minha mãe não riu. Mas depois passou-me logo essa atrapalhação porque vi, pela primeira vez na minha vida, esses caroços que eles chamavam de "tremoços". Por alguma razão o meu pai ainda não tinha me chamado para eu vir provar. É que eu era assim um pouco estraga-tudo nessa altura, e o meu pai já devia desconfiar mais ou menos o que eu ia fazer com os tais tremoços.
Disseram para eu provar, não gostei do sabor. Mas pelo formato, e também por causa da experiência que eu já tinha com as fisgas lá na minha rua de Luanda, vi que aquele tremoço dava masé para ser disparado só assim apertando com os dedos. Fui lá fora treinar na árvore e quando voltei à sala já tinha a pontaria bem afinada. A primeira vítima foi a minha irmã, a segunda foi uma velha que estava lá sentada e que era muda. Fiquei todo satisfeito porque pensei que ela não fosse me queixar. Mas era uma velha queixinhas e o meu pai pôs-me de castigo.
O resto dos dias passámos na quinta do primo Beto. Aí gostei muito de ter conhecido uma horta com um pequeno lago, onde nós arrancávamos o tomate do chão, lavávamos e comíamos logo ali. Também uma menina muito bonita chamada Micaela, ensinou a mim e à mana Tchi a comer batata-doce crua, que era uma maravilha. Comíamos a bata-doce e, se tínhamos sede, atacávamos o tomate. Voltávamos os três para a quinta, ao fim do dia, e eu dava corrida aos perús. Também nunca tinha conhecido um perú assim de perto com os gritos dele tão engraçados de glu-glu.
O pai da Micaela, o primo Zequinha, foi muito simpático e ensinou-me duas técnicas de caçar rolas, uma era pôr visgo nas árvores e esperar os pássaros pousarem, e a outra, que eu gostei mais, era usar a arma de chumbo para tentar caçar alguma coisa. Digo "tentar" porque a minha pontaria não era lá muito boa, então dediquei-me mais à técnica da cola branca na árvore.
De manhã acordávamos cedinho e era tudo muito frio e muito bonito. Eu usava aquele casaco azul bem antigo que a minha mãe me deu, e que tinha um tecido bem macio tipo veludo que eu adorava tanto. Matabichávamos devagar. Os mais velhos falavam devagar. Combinaram ir à caça. A minha irmã riu, baixinho, e não disse a ninguém, mas eu sei que ela viu a maneira como eu olhava para a Micaela. É que a Micaela era muito bonita.
Podíamos brincar de manhã e até perto da hora do almoço. Ajudávamos a pôr a mesa, e depois do almoço eu e a mana Tchi tínhamos que estudar um bocado. Havia também um livro, sobre o comportamento do corpo humano, que a minha mãe dividiu em dez partes para eu e ela lermos um bocadinho todos os dias. Quando chegou o capítulo das relações sexuais eu gostei muito daquelas fotografias do homem deitado todo nu com a mulher, e da parte que dizia que, para fazer um filho, "o homem introduzia suavemente o pénis na vagina da mulher". Eu nunca queria avançar esse capítulo. A minha mãe é muito querida porque ela sabia que já tínhamos passado aquele capítulo mas deixou-me repetir outra vez a lição.
Um dia, ao fim da tarde, o sol estava muito bonito assim todo amarelo quase bem torrado. O meu pai tinha ido à caça com o primo Beto e o primo Zequinha também. A mana Tchi tava a descansar e a minha mãe a ler. Eu perguntei à Micaela se ela queria dar uma volta comigo ali pela quinta. Ela disse que sim. Mas a volta foi muito rápida, e eu perguntei se ela queria dar outra volta. Ela riu e disse que sim. Como não queríamos dar outra volta, sentámo-nos numas pedras mais distantes da casa e eu tinha muita vergonha mas também muita vontade de lhe perguntar se ela queria namorar comigo. E ela disse que sim. Então, talvez para comemorar, demos mais duas voltas à casa, mas já de mãos dadas.
Na província do Namibe eu conheci a avestruz, as gazelas, um montão de pássaros, o deserto, e nesse dia à noite, o meu pai e os primos dele caçaram um olongo. Aquilo é que foi ficar de boca aberta: eu nunca tinha visto um animal tão grande e tão pesado, e também nunca tinha visto umas armas tão compridas. O primo Zequinha disse que até podiam matar elefantes com aquelas balas, eu pensei que não era verdade, mas o meu pai disse-me que sim.
No último dia de manhã é que o meu pai se lembrou de tirar fotografias a todos. Eu também aproveitei uns pássaros que o primo Zequinha já tinha conseguido matar, pus todos assim no chão perto dumas pedras e fui buscar a arma de chumbo. Fiz um póster de joelho no chão estilo filme de cobói e o meu pai tirou uma foto que eu tenho até hoje, também com chapéu que me ficava grande mas que tinha assim aquele estilo do Trinitá.
Gosto muito dessas fotos todas que nós tirámos na província do Namibe, tem uma muito bonita da minha mãe bem distraída a fumar um cigarro, tem a foto do meu pai perto do olongo que eles tinham caçado mas, para dizer mesmo a verdade, a foto mais bonita é uma que tou eu, a Micaela e a mana Tchi. A Micaela tá bonita, eu até que tou posterado, mas a mana Tchi, com o fato olímpico vermelho também desse tecido fofo tipo veludo, a mana Tchi é a que está mais bonita: com o riso bem bonito e, assim quase a sair da foto, os dois puchinhos, bem grandes, a prender o cabelo todo preto dela. A mana Tchi.

in Os da minha rua


Ondjaki nasceu em Luanda, em 1977. Ficcionista e poeta. Escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (Oxalá cresçam Pitangas - histórias de Luanda, 2006). É licenciado em Sociologia. Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão e inglês.

Palavras para quê??




Apenas...
espreitar
conhecer melhor
o fabuloso
BOBBY MCFERRIN

Fabian Perez



Summer Dress









summer dress makes you more beautiful than the rest
lovliest girl that i know, and the sweetest
spends her life inside, she thinks she isn't blessed

summer dress separates you from the rest
easiest days of her life have been spent
wonders if she is loved, if she is missed

says a prayer as she's kissed by ocean mist
takes herself to the sand and dreams

says a prayer as she's kissed by ocean mist
takes herself to the sand and dreams

Summer Dress, Red House Painters

Bobby McFerrin

As árvores e os livros

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga
in Herbário, poemas de Jorge Sousa Braga