quinta-feira, 28 de outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

domingo, 24 de outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Through The Barricades

Jangada para longe


Si rotcha é pâgina! pedra ê sílaba
si corpé é caneta! coraçon ê tinta

Corsino Fortes, Árvore & tambor.


Para ele o mundo era um quintal enorme dotado de compartimentos separados por água e fenómenos como as chuvas, as tempestades ou mesmo os ódios dos homens carregados em navios enormes eram gotículas para qualquer sorriso desfazer.
Por hábito, sentava-se no monte observando navios partir e chegar. Vivia obcecado com a ideia de conhecer outros países, mais do que isso!, outras gentes, como se as suas veias fossem irrigadas por sensações movediças e volúveis ao empurrão do vento, nisso que era o seu prazer mais íntimo: observar os que chegavam, cheirar-lhes os cabelos, catalogar-lhes o sorriso segundo a proveniência, e, quase imperceptivelmente, fazê-los falar de coisas banais acontecidas do outro lado do mundo.
Trabalhava há meses na secreta engenhoca, desenvolvendo no alpendre barulhos entrecortados com pancadinhas, importando para o habitáculo toda uma gama variada de pregos, panos, tubagens diversas, correntes, metais, tintas, até ao dia em que a barulhagem cessou e apenas restou o som de um assobio simples, desnutrido de qualquer ritmia mais complicada – como cantam os pássaros antes de terem molhado o bico na frescura da manhã.
Sem cerimónias para empolar o acontecimento, retirou o engenho da casa num lento mas eficaz berço semi-mecanizado, e o povoado sorriu em uníssono numa candura de espanto e respeito pelo enorme objecto misterioso que desfilava pelas pedras da calçada. O desfile solitário cessou na praça principal.
A estranha criatura de madeira era perturbante e bela, fria e poética, ridícula e cativadora, o que impelia os observadores locais a sorrir de modo involuntário, como se a incompreensão do seu funcionamento em vez do rancor pelo inventor antes instigasse uma sensação de autoria colectiva. Todos, cada um a seu tempo, modo e sorriso, sentiam patentes na obra o cunho da sua contribuição pessoal e nunca se saberá quem foi o primeiro jovem ou a primeira velha a depositar no corpo do ser móbil a primeira recordação, o segundo objecto de decoração, a terceira folha de árvore, a quarta estátua de madeira ou a quinta folha da secção de poesia do único jornal local. Naquilo que se julgou ser o guiador da máquina, a velha mais velha do povoado (sendo por isso, de certo modo, a mais bela) amarrou com vigor o único sibitchi que o engenho levaria.
Durante dois dias a exibição perdurou, numa ânsia que crescia por si e se alimentava de horas e olhares, tendo originado que a máquina fosse já outra, repleta de decorativos tradicionais, besuntada de cores vivas, vítima de peso duplicado pelas oferendas que as suas bagageiras abarrotavam. Crianças, aleijados e idosos, bebés de colo e cães vadios, nuvens e sóis, centopeias negras e pássaros brancos, marinheiros e putas pobres, comerciantes e doidos serenos, pescadores com estórias de sereias e ventos místicos, farmacêuticos e padres, bêbados e beatas, o governador e a esposa gorda e até um caixeiro viajante, estiveram todos na praça, no terceiro dia, aguardando as primeiras palavras do inventor da escultura já carnavalesca. A velha mais velha do povoado (sendo por isso a mais sabedora e intuitiva) viu o mundo e o povoado banhados pela névoa da sua lágrima idosa e todos então souberam: era uma máquina de se pedalar para longe.
Depois das palavras do governador, onde encorajava a atitude criativa do cidadão, elogiava com veemência e emoção a sua iniciativa cultural, declarando aquele dia feriado nacional, o inventor tomou a palavra e, nuns modos verbais desajeitados e caducos, instigou a população a contribuir com gravuras, comida seca, plantas medicinais, panos, sementes e livros ou registos pessoais de poesia:
– Poesia, sim... – disse, em banho de comoção. – Porque é isso que um povo deve oferecer a outro!
Mais adiantou o local da sua derradeira partida, explicando que faria esse longo percurso em velocidade lentíssima para que os conterrâneos apreciassem as qualidades da máquina, indagassem de suas potencialidades e lhe fossem entregando, nesse percurso inclinado para o lado de lá do mundo, as cartas, os recados e os conselhos válidos para a movimentação humana que aquela viagem materializava.
Ao longo da estrada, entre um e outro solavanco de pedra, exibiu ao povoado o complicado engenho que a sua imaginação fizera eclodir: uma labiríntica máquina de ventos e popas, tubos de refrigeração e reaproveitamento de líquidos e sopros, compartimentos impossíveis, reguladores de temperatura e duas enormes bagageiras para livros já com cantos falsos previstos para a naftalina em bola branca. Era máquina para ocupar meia dúzia de metros quadrados mas com estabilidade estudada e apetrechos científicos que a permitiam mover-se a vento, ácido úrico ou força humana que se expressasse em acto de pedalação.
Quando chegou à praia, nesse lento cortejo que havia acontecido, alguns dos ilustres convivas do povoado já lá o esperavam e, na tendência narcísica de se voltarem a ouvir, quiseram mesmo reinventar novos discursos. O dono da engenhoca dissuadiu-os de o fazer, enquanto se desfazia de alguns volumosos mantimentos gastronómicos que a população ofertara, sendo que a praia, azulada e linda, foi palco de um improvisado banquete de que as crianças puderam usufruir com certa euforia.
O fim da tarde, propício a momentos de marítima aventuragem, havia-se já instalado. Pássaros ao longe, o sol se extinguindo nas águas do mundo, o violão sorridente de Kaká Barbosa, as cervejas derretendo os corações e a mulata triste, ao longe também, que com o olhar se despedia do homem que partia.
Movimento humano, rústico, o homem iniciou as movimentações – correntes puxadas e velas içadas, duas espécies de pedais que se desdobravam de tubos secretos, e a máquina de se pedalar revelou uma poética simbiose de jangada com algo que existisse sob a designação de bicicleta naval. As gentes afastaram-se do homem deixando-o a braços suados com a sequencial preparação mecânica que o acto requeria. E moveu-se – aquilo.
Uma onda embateu estrondosa na janguicleta, como seria mais tarde chamada, e os lábios de cima das pessoas se afastaram dos lábios de baixo – espanto e burburinho, pois a máquina dançava encaixada na curva das ondas, resistindo às laterais investidas da água, desenvolvendo um ruído manso e redistribuindo brilhos d’água nas gotas de sol que as enormes pás movimentavam.
A estranha criatura de madeira e o homem nela baloiçavam na direcção do horizonte estirado, e só então um padre despertou para a evidência do que não havia sido indagado:
– Ó nhôôôôô... – o berro sobre as gentes, sobre as águas. – Undi ki nhu átabai?
Lá das guelras salgadas da sua garganta, entre sorriso-só e suor-delícia, entre sombra de sol e raio lunar, entre certezismo hirto e utópico deslumbramento, o homem pedalante gritou assim:
– N’ta ba tê Spanha..., ta ba tê Merca di bicycleeeeetaaaaa!

ONDJAKI

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O REENCONTRO...

Todos, de alguna manera nos reencontramos,

Aquí o allá; acá en mi lecho o allí en un bus,

No importa donde, pero nos reencontramos,

En una encrucijada, o en un jardín azul,

En el fondo del camino, o en una casualidad,

No importa el lugar, lo cierto es que ahí estás.

Y así, asimismo, lo inmenso deviene pequeño. Y,

El laberinto se vuelve un mapa de calles con nombres.



Todos, creyentes o no creyentes,

Pero de este lado, Opacos por la sed y el hambre,

Pero con la luz en la mirada,

Todos, en algún instante nos volvemos a cruzar.



Todos los de este lado, luchadores infatigables,

Guerreros de antaño y combatientes modernos,

Justos y equivocados, hombres de una causa,

Militantes del bien y del amor noble,

Caminantes, viajeros donadores de sonrisas,

Trovadores que reparten la esperanza,

Poetas que van por las calles oscuras aclarando el alma,

Todos, no importa dónde ni cómo, lo cierto es que ahí estás.



Todos, ateos y escépticos,

Pero de este lado,

Desteñidos por los latigazos del sol,

Pero de corazones coloridos,

Todos, en algún instante nos vemos en esta lucha de siglos.



Apaga tu dolor, porque no estamos solitarios en esto,

Ya somos muchos, ya se cuentan por millones,

Sométete al silencio y, escucha...

Contempla la luna, sólo, en la noche oscura,

Observa tranquilo aquella mirada y, perfórala.

Déjate llevar por el viento, como si fueras una hoja,

Busca el sueño en la noche. Así. Profundo,

Y ya verás, seguro que mañana me encontrarás.



( Luis Arias Manzo, poeta Chileno )







(HUGO INFANTE/AFP/Getty Images)