quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O PESO DOS LIVROS

Pensava que os livros não têm peso. Quero dizer, flutuam no entendimento.

Na memória. Ou melhor: equilibram-se porque não são gente.

Não têm noites, não têm insónias. Não têm sono lá dentro.



Pensava que os livros são menos complexos do que nós. Mesmo quando

não temos linha, quando não temos palavra. Mesmo quando

não conseguimos respirar. Quando pensei nisso,

tive uma vaga noção de título.



E um hálito branco a querer ser página.



Filipa Leal, in O problema de ser norte/ Deriva Editores

Dez réis de Esperança

Se não fosse esta certeza


que não sei de onde me vem,

não comia, não dormia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram, e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto,

flores sem caule, flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.


António Gedeão

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Iron and Wine - Flightless Bird, American Mouth (Live)



Acabadinha de chegar da FNAC carregadinha, exausta mas feliz....
este vai ser um Natal cheio de livros e cds...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Carta de um contratado

Eu queria escrever-te uma carta


amor,

uma carta que dissesse

deste anseio

de te ver

deste receio

de te perder

deste mais bem querer que sinto

deste mal indefinido que me persegue

desta saudade a que vivo todo entregue...



Eu queria escrever-te uma carta

amor,



uma carta de confidências íntimas,

uma carta de lembranças de ti,

de ti

dos teus lábios vermelhos como tacula

dos teus cabelos negros como dilôa

dos teus olhos doces como maboque

do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por aí...



Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que recordasse nossos tempos a capopa

nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

o luar que se coava das palmeiras sem fim

que recordasse a loucura

da nossa paixão

e a amargura da nossa separação...



Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que a não lesses sem suspirar

que a escondesses de papai Bombo

que a sonegasses a mamãe Kieza

que a relesses sem a frieza

do esquecimento

uma carta que em todo o Kilombo

outra a ela não tivesse merecimento...



Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que ta levasse o vento que passa

uma carta que os cajús e cafeeiros

que as hienas e palancas

que os jacarés e bagres

pudessem entender

para que o vento a perdesse no caminho

os bichos e plantas

compadecidos de nosso pungente sofrer

de canto em canto

de lamento em lamento

de farfalhar em farfalhar

te levassem puras e quentes

as palavras ardentes

as palavras magoadas da minha carta

que eu queria escrever-te amor....



Eu queria escrever-te uma carta...



Mas ah meu amor, eu não sei compreender

por que é, por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes ler

e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também



Poemas, 1961, Luanda

António Jacinto

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sambolera - Khadja Nin

Burundi - Khadja Nin - Wale Watu



aca ile maneno ya bule Usiji liliye hali yako We haujuwe umasikini Hangaliya wale watu Hawa liye hawa ombe Wale watu wana imba Ata kama wana lala njala Arrête tes vaines paroles Ne regarde pas juste ton nombril Toi, tu ne connais pas la pauvreté Regarde ces gens là ! Ils ne pleurent pas ni ne mendient ! Ces gens là, ils chantent Même s'ils couchent le ventre vide !

Mbali ya ma inchi yote Mbali ya paris au roma Kuna watu masikini Hawa liye hawa ombe Wana itika tu vile Wale watu wana imba Ata kama wana lala njala Njo vile kila siku Loin de plusieurs pays Loin de Paris ou Rome, Il y a des gens pauvres Ils ne pleurent pas, ils ne mendient pas non plus ! Ils acceptent cette situation juste comme ça Ces gens là, ils chantent, Même s'ils se couchent affamés ! C'est toujours comme ça!

















Peter Gabriel & Sinead O'Connor - Blood Of Eden

Peter Gabriel & Cocteau Twins

Tim Buckley - Song to the Siren

sábado, 13 de novembro de 2010

HOJE CHOVIA A CHUVA QUE NÃO CHOVE

Quando a África incha seus músculos de sangue & secura

Não há Sahel que não queime

No coração da noite

A sua salina de solidão



Não há boca Que não chova a sua gota de corpo & alma

Nem gota

De água doce Que não seja

Um espaço! para amar & habitar



Por vezes! o relâmpago

Escreve coisas vivas na boca do arquipélago



E as ilhas soerguem-se

pelo arquipélago das patas

E vão



De cratera em cratera

Erguer

na boca das sementes

A força contida dos vulcões



Homem! deus é grande entre duas ilhas

Se baleias emergem da gota do teu rosto



Na Ilha! a cicatriz de deus é grande

Mas a ferida do homem é maior


Canção! no arbusto da viola


Que chove

A lírica de deus é grande

Mas a música do homem é maior



Mulher! quando o céu da tua boca

Arrasta o corpo da terra

Até à goela da água longínqua

A febre conta no arco-íris

Da carne que sangra

A montanha roída dos dentes...



E da cicatriz da mão

brotam raízes

Que vicejam a memória dos séculos

Corsino Fortes