quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Quem conta um conto acrescenta um ponto...






Viver com as fadas

Os contos de fadas abrem-nos as portas para o mundo dos sonhos, mas não só. São importantes para manter acesa a chama do inconformismo, da inquietação, no fundo para formar cidadãos capazes de perceber que a realidade nem sempre é aquilo que parece. E que está nas nossas mãos a possibilidade de transformar essa mesma realidade.

Maria Gabriela Llansol

E havia o Anjo da Esperança, que era o mais
Temido. Porquê o mais temido? Porque se sabia
Não Esperado. vinha a qualquer momento agarrar
Para a luta combatente, que é diferente da luta
Divergente. o que esfria distancia-se.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

BARCOS




















Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Sophia de Mello Breyner Andresen (in MAR)

Maria Gabriela Llansol

O amor viu alguém passar e ir-se embora

num tempo breve de silhueta. Se houve

batimento de coração, sua oscilação foi

Imperceptível. Como a ampulheta se não

moveu, o amor prometeu que, se próxima

Vez houvesse, iria prestar atenção à vida

Inesperada. Sursum corda!
Se Perguntarem Por Mim...
Digam Que Voei...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

“O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO”

















“Pássaros nenhuns não havia. Tudo em liso silêncio. Mas meu pai, só ele escutava o rouco grasnar dos flamingos. Dívida que ele tinha com as aves pernaltas. Os pescadores chamam-lhes os ‘salva-vidas’. No meio da noite, em plena tempestade, quando se perde noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores perdidos”.





MIA COUTO

MIA COUTO

Aos poucos, vou perdendo a língua dos homens, tomado pelo sotaque do chão. Na luminosa varanda deixo meu último sonho, a árvore de frangipani. Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte.

A Varanda do Frangipani

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Deixa-me rir

«Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa,
do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar

E não é teu o que queres vender
Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente

Não me venhas falar de amor !
Pois é , pois é
Há quem viva escondido a vida inteira

Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira
Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique

Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio

Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante
Pois é, pois é

Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira »

GOSTO

Gosto de observar pessoas,
desligar de tudo durante muito tempo apenas a respirar,
imaginar cenários,
olhar as pessoas nos olhos,
tomar um café, e conversar num lugar perfeito,
estar com amigos
viagens, ...

Gosto também de pequeninas coisas...
do cheiro da terra depois da chuva,
gosto de chá,
de chocolate,
de um cobertor muito macio,
da água a escorrer pelo corpo,
do vento a bater na cara quando corro...
e de mim,
cada vez mais...
vezes!

MIA COUTO

Perguntas à Língua Portuguesa


Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?

Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver.

Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?


No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?


• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?

• O mato desconhecido é que é o anonimato?

• O pequeno viaduto é um abreviaduto?

• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.

• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?

• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?

• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?

• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?

• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?

• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?

• Mulher desdentada pode usar fio dental?

• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?

• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?

• Um tufão pequeno: um tufinho?

• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?

• Em águas doces alguém se pode salpicar?

• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?

• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?

• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?

• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?


Brincadeiras, brincriações.

E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

















Umas vezes o tanto que falta

outras o que já foi caminhado...

PABLO NERUDA

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

TAMBÉM GOSTO...

  • de abraços demorados

  • de pessoas autênticas

  • de conversas eternas

  • de quadros grandes

  • de todas as estrelas do céu

  • do sol da manhã e da luz do dia

  • do vento quando deixa marcas na areia lisa

  • de ver pessoas felizes

  • de me esquecer das horas

  • da verdade e da cumplicidade

  • e de mim

  • às vezes...

" UM ROSTO QUE HÁ-DE VIR"

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente.
Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
Que una persona no lea es una estupidez,
un crimen que pagará el resto de su vida.
Pero cuando es un país el que no lee,
ese crimen lo pagará con su historia.

Mempo Giardinelli

... a melhor sala de aula do mundo...










































terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Gosto de gente • Gosto de falar • Gosto de ouvir • Gosto de amar • Gosto de ser amada • Gosto de música • Gosto de um bom livro • Gosto de desenhar • Gosto de um bom jantar • Gosto de um bom amigo • Gosto de desafios • Gosto da verdade • Gosto de justiça • Gosto da lealdade • Gosto da honestidade • Gosto do cheiro do mar • Gosto do vento na cara • Gosto de brincar • Gosto de rir • Gosto de chorar • Gosto da vida • Gosto de mim! Às vezes...outras não!...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

JOSÉ MENA ABRANTES


O bebé e a mãe

crescera dentro
da mãe
como todos os bebés
uma faca grande
talvez suja
como tantas vezes acontece
cortara
o cordão da vida
que o ligava
à mãe
uma manhã
aninhado
no calor das costas
da mãe
acordou de repente
a mãe corria
depois a mãe caiu
e ele com ela
a mãe ficou
quieta
muito quieta
e ele
chorou alto
sentiu então
que o uniam de novo
à mãe
com uma faca grande
talvez suja
como tantas vezes acontece

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Italo Calvino

"Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Para Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha de baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos diante das torres de reduto, onde se te opõem resistência os Livros Que Há Muito Programaste Ler,
os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,
os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Te Ocupas Neste Momento,
os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,
os Livros Que Te Faltam Para Pores Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,
os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina,
Frenética E Não Claramente Justificada.
E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Que Leste e Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.

ITALO CALVINO
"Se numa noite de Inverno um viajante"