segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Peter Callesen















sexta-feira, 26 de setembro de 2008

IRISZ AGOCS

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Para sempre...

Inesquecivel

"(...) Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. (...) Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. (...)"


A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón

A Exposição da tia Nini no Palácio dos Ciprestes...












terça-feira, 23 de setembro de 2008

A Ilha de Moçambique de Mia Couto

Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.

A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.

E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.

A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.

Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.

Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.

Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.

(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)

O corpo como tela em permanente mudança, em constante embelezamento. A natureza, o homem e a arte!








quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Pequenas Pedrinhas Brancas

Pequenas pedrinhas brancas… para pequenos polegares pensantes!

A história é a guloseima, antes da longa separação da noite. É como uma lampadazinha que a criança poderá meter debaixo do travesseiro. Uma ideia, uma imagem para afagar, para chuchar, para remexer em todos os sentidos. É o que os bebés pressentem quando se lhes dá um livro, que eles viram de pernas para o ar vezes sem conta! “Sim”, dizem na sua linguagem. “Há alguma coisa de essencial e de misterioso. O livro é mágico.”
Lendo uma história aos nossos filhos, fornecemos-lhes uma mão cheia de pedrinhas brancas – que os pássaros não comerão. Levá-las-ão consigo, ao longo do caminho, rumo à floresta obscura. Perdidos no escuro, assolados de perguntas, dúvidas e angústias, saberão desenvencilhar-se. E tirar proveito delas.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Carla Nazareth

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A CASA FEITA DE SONHO

Leve como uma pluma,
alta como uma torre,
quente como um ninho
e doce como o mel,
assim imaginei
desde pequeno
a minha casa…



Mais tarde, quando me encontrei só no mundo, como não tinha dinheiro, resolvi construí-la com as próprias mãos. Fiz primeiro a minha casa de papel, que é um material barato.
E assim que ficou pronta, vieram todos os ventos da Terra e levaram a minha casa de papel, leve como uma pluma…
Fiquei sem casa, mas não desisti. E fiz a minha casa à beira-mar, com areia da praia, que é um material barato.
Mal estava pronta, vieram todas as marés do mundo e levaram a minha casa de areia, alta como uma torre…
Deu-me vontade de desistir, mas eu precisava de uma casa, e sobretudo não podia abandonar o meu sonho.
E resolvi fazer a minha casa de madeira, que é um material barato. Cortei-a dos bosques, com as próprias mãos! Ficou linda!… Escondida entre a folhagem…
Mas ainda mal a tinha acabado, vieram todos os fogos do céu e queimaram a minha casa de madeira, quente como um ninho… Chorei sobre as cinzas, como se chora uma pessoa querida que morreu.
Mas, mesmo assim, não desisti. E resolvi fazer a minha casa de açúcar…
Mas o açúcar não é um material barato! Pois não…
Mas eu precisava de uma casa, e sobretudo, não podia abandonar o meu sonho.
Trabalhei, lutei, passei fome, para juntar o açúcar suficiente…
E quando a minha casa estava pronta — eram de açúcar as paredes, o chão, o tecto, os móveis, as portas e as janelas — vieram todos os bichos da Terra e devoraram a minha casa de açúcar, doce como o mel…
Fiquei sem casa. E desisti de construí-la com as próprias mãos…
Perguntam-me onde moro… Onde moro eu? Sei lá!… Vou pelo mundo, aqui, além, no bosque, à beira-mar… Perguntam-me se não tenho casa… Tenho, sim! Eu podia lá abandonar o meu sonho!…
Resolvi imaginá-la. Num sítio onde não chega o vento, nem o mar, nem o fogo, nem os bichos da Terra.
Fiz a minha casa com o meu próprio sonho. Ficou linda!
Leve como uma pluma, alta como uma torre, quente como um ninho e doce como o mel…





Ricardo Alberty
A casa feita de sonho
Melhoramentos de Portugal, 1991

Rebecca Dautremer

sábado, 6 de setembro de 2008

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Reflexões de um psiquiatra

As dádivas da vida


As violências, as situações negativas, as dificuldades encontradas ao longo da vida parecem deixar mais vestígios no nosso espírito, na nossa memória, no nosso corpo ou na nossa história do que os acontecimentos felizes que possamos ter vivido.Depositam-se no fundo do ser, abrem fendas e revelam falhas. Inscrevem-se como feridas, como páginas amarrotadas ou rasgadas da nossa história que nos apressamos a contornar, a pôr de lado, a esquecer.Tudo se passa como se o nosso plano de consciência ficasse cativo de uma percepção clivada e fundamentalmente dual da realidade: de um lado tudo o que é bom, tudo o que está conotado com o prazer, a gratificação e a segurança (todas as mensagens desta natureza são cultivadas, granjeadas, procuradas ou até endeusadas numa ideologia positivista); do outro lado tudo o que gera desprazer, confronto com o inaceitável, com a insegurança, tudo aquilo que será negado, repudiado, dividido a meio, e que, no entanto, permanece nos traços profundos que deixa em nós.Tudo se passa como se não tivéssemos aprendido a descodificar as mensagens da vida contidas em cada acontecimento, para lá da sua conotação imediata de sofrimento, de obstáculo ou de dificuldade; como se não soubéssemos captar, e menos ainda, acolher os fenómenos gratificantes, os factos positivos, as oferendas da vida, escondidas, mas presentes… em tudo o que nos acontece.Os Índios da costa oeste do Canadá afirmam que “qualquer acontecimento, qualquer encontro, esconde uma bênção”, desde que aceitemos descobri-lo como tal.Uma tal disponibilidade de acolhimento, uma tal disposição supõe que possamos entrar num tipo de sintonia particular, numa harmonia, no sentido vibratório do termo, entre aquilo que nos chega da vida e a forma como o vamos captando, recebendo, integrando e assimilando.Uma rapariga tinha ganho dois lugares gratuitos para um concerto de jazz oferecidos por um grande jornal diário suíço. Fora recebida no salão VIP, agraciada com muitos presentes: saco, disco, esferográfica… No intervalo, para ir beber um refresco, pousa o porta-moedas junto da cadeira, juntamente com o copo vazio, para ficar com as mãos livres e saborear uma barra de chocolate; depois, na confusão do momento, esquece-se do porta-moedas e do saco. Ao voltar para casa, dá-se conta das coisas perdidas: dinheiro, documentos, cartões de crédito. Fica desnorteada, imagina o pior e começa a recriminar-se, tanto pelo que tinha feito como por aquilo que deixara de fazer… Depois, caindo em si, imagina que alguém poderá ter encontrado o porta-moedas, e sobretudo os documentos, e então consegue passar o resto da manhã mais animada. Disse mais tarde: “Eu, que acabava de perder tanta coisa, sentia-me sintonizada com o dar.” No final da manhã, o telefone toca e ouve alguém anunciar-lhe que tudo fora encontrado intacto: porta-moedas, documentos, cartões de crédito e o dinheiro. Tratava-se de um jovem casal que, tendo assistido ao mesmo concerto, vira o porta-moedas e o saco esquecidos debaixo da cadeira. Acrescentou: “Dali em diante, tornámo-nos próximos. Senti uma corrente de afinidades muito forte entre mim e aquele casal. Foi assim que aqueles amigos entraram na minha vida.”Quando deparamos com aborrecimentos, arrelias ou contrariedades, quando temos um acidente, quando a doença surge, quando um ser amado nos deixa, é-nos muito difícil, num momento inicial, perceber em que é que estes acontecimentos podem ser positivos, em que é que eles são portadores de uma dádiva! Os factos em si, a violência que os acompanha irritam-nos, revoltam-nos, violentam-nos e desestabilizam-nos. Provocam atitudes de reacção ou de defesa. Por vezes até nos ferem, martirizam-nos, podem atingir-nos no mais fundo e destruir uma parte essencial de nós mesmos. É necessário um regresso a nós próprios, um trabalho de interiorização e de tomada de consciência antes de se poder encontrar a chama viva da nossa frágil existência, a abertura possível e a mudança depois do período de insegurança, antes de descobrirmos o milagre que nos é oferecido naquilo que, num primeiro instante, só deixara antever a violência, o caos, a injustiça ou a confusão inaceitável.“Quando o meu namorado me deixou, julguei que a minha vida tinha acabado. Achava que já não tinha qualquer valor nem utilidade à face da terra, que já não tinha nenhuma razão para viver. E quando uma amiga me propôs que fosse para junto dela, para o estrangeiro, fi-lo por ela, pelo menos assim o julgava. Seis meses depois, fazia-o por mim, ao começar um curso. Estou convicta de que não seria a mulher que hoje sou se não tivesse dado ouvidos aos sinais que me chamavam para fora de mim, para fora do meu país.”“Esta doença foi uma verdadeira revelação. Mudei o meu modo de vida, a forma de me vestir, os meus passatempos transformaram-se numa festa. É certo que perdi alguns amigos, mas encontrei outros.”Um acontecimento traumático pode vir a ser revelador de potencialidades inexploradas, de aspectos de nós mesmos ainda por descobrir.Uma crise, um conflito agudo, podem ser catalisadores de energias dispersas, permitindo mobilizar riquezas desconhecidas, despertar potencialidades inesperadas.A vida contém muitos presentes. O mecanismo parece ser o seguinte: os sinais positivos, quando são recebidos e tidos como tal, dão energia, e essa energia transforma-se de uma certa forma em sensação de bem-estar, em amor. Pelo contrário, os sinais negativos podem ser captados como violências que despertam feridas que, por sua vez, geram sofrimento. O sofrimento, o ressentimento desvitalizam, consomem energia.Deveríamos, então, optar por uma aprendizagem das relações humanas que nos permitisse acolher, com gratidão, a vida contida em todo e qualquer acontecimento, em qualquer encontro, em toda a partilha. Pois é disso que de facto se trata. Estar vivo é acolher a vida. Nós não recebemos a vida só no momento da concepção ou do nascimento, como um capital adquirido e que só bastaria gerir ao longo da existência terrestre. Penso que podemos acolher, dinamizar a vida que vem ao nosso encontro sob todas as suas formas, tal como se nos apresenta no dia-a-dia de uma existência.Em qualquer encontro, através de estímulos que nos chegam da natureza, dos seres, dos acontecimentos e das situações que interagem connosco, a vida está presente, presente em toda a parte, pedindo apenas para encontrar vida. Somos, de algum modo, receptores e passadores de vida.Acolher a vida, valorizá-la, ampliá-la e espalhá-la à nossa volta, pode ser esse o sentido da nossa passagem sobre a Terra. Poderíamos, assim, renunciar a muitos engodos, a muitas mitologias à volta do amor. Ao aprendermos a amar-nos, poderíamos alargar as nossas relações em termos de “ecologia relacional”.Se soubermos acolhê-las, é certo que receberemos dádivas da vida mas podemos também oferecê-las, espalhá-las, criá-las. Cada pessoa poderia interrogar-se à noite antes de adormecer:
Que presente de vida pude oferecer hoje? Que palavra, que olhar, que sorriso, que gesto, que aceitação, que confirmação ofereci, recebi, revelei? Quem é que, todos os dias, é capaz de transmitir, àquele que encontra, o sentimento de fazer crescer a vida, de embelezar o seu olhar, de ter acesso à sua palavra, de se sentir mais amado, mais presente? Quem pode ter o propósito de se aceitar melhor, de ousar amar-se e de amar a tempo inteiro?Tornar-se, assim, um semeador de Vida. A vida é uma espécie de dádiva que dura um instante – apenas.

Herbjorg Wassmo
in contadores . destorias

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sim é ter no coração Sempre a mesma canção...




Deve ser amor

Sim, sinceramente, amor
Eu não sei o que se passa em mim
É assim como uma dor
Mas que dói sem ser ruim
Sim, é ter no coração
Sempre uma canção
É tão embriagador
Deve ser, sim
Deve ser amor

"PARA UM AMIGO" ...

CARTA AO PRESIDENTE BUSH

por Mia Couto
Senhor Presidente:

Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.
Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos. Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:
- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações;
- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;
- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;
- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);
- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;
- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;
- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";
- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.
O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.
Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.
O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu-lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos. O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.


Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é escritor moçambicano, nascido em 1955 na cidade da Beira, autor de "Estórias Abensonhadas" (1994), "Contos do Nascer da Terra" (1997) e "Vinte e Zinco" (1999), entre outros. O original deste texto está em http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2003/03/251129.shtml

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O 15 de Agosto

quinta-feira, 21 de agosto de 2008









Na história da gente...

Há gente que fica na história...
na história da gente....



PARABÉNS NELSON ÉVORA

Da Varanda.





quarta-feira, 30 de julho de 2008

29-07-08

30-07-08

Hoje
transporto no peito o doce sentir de mais uma batalha vencida...

A felicidade abraçou-me de novo...
e eu deixei...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

estava capaz de fazer uma fogueira

Estava capaz de fazer uma fogueira. Apetece-te uma fogueira?
Vou fazer uma fogueira.Estava capaz de rasgar o jornal de domingo aos bocadinhos
E tentar não ligar aos anúncios.Estava capaz de acabar de cavar o buraco que estive a abrir no quintal.
Estava capaz de fazer chá e tomar vitamina C.
Apetece-te uma chávena de chá?
Estava capaz de dar muito simplesmente um passeio, sem destino nenhum.
Estava capaz de ficar muito sossegadinho a um canto, parando de inventar motivos para andar de um lado para o outro.
Estava capaz de ter uma conversa contigo.
Apetece-te uma conversa?

Crónicas Americanas, Sam Shepard

terça-feira, 15 de julho de 2008

Vozes Anoitecidas

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros.Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo.Na travessa dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas do meu voo de escrever. A umas e a outras dedico este desejo de contar e de inventar.


Mia Couto

terça-feira, 8 de julho de 2008

casas...






Parabéns amiga






Gost`TI tanto!!!!!!!!!!!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Dores...

(...) O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)"

Mia Couto in O Fio das Missangas

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Estórias Abensonhadas...

"A dor é uma estrada: você anda por ela, no adiante da sua lonjura, para chegar a um outro lado. E esse lado é uma parte de nós que não conhecemos. Eu já viajei muito dentro de mim."


Mia Couto, in "Estórias Abensonhadas"

Trémula Chama


"(...) Não somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo (...)

"in "Ensaio sobre a Lucidez", José Saramago, Editorial Caminho

Mar sonoro...Mar sem fundo...Mar sem fim...


"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim."

"Mar sonoro", poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 2 de julho de 2008

HIROSHIMA ...



terça-feira, 1 de julho de 2008

Estórias Abensonhadas...




















"Ele não fazia cerimónia no viver. O sempre lhe era pouco e tudo insuficiente. (...) O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades."


Mia Couto, escritor, biólogo e poeta, in "Estórias Abensonhadas"

ilustração de Cristina Valadas