segunda-feira, 14 de abril de 2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

E CHEGOU O DIA...5 FOI O ESCOLHIDO...



























Depois de muito trabalho...muitas horas... O MUNDO AO CONTRÁRIO JÁ MORA NA NOSSA BIBLIOTECA... Ficou assim....e está linda a HORA DO CONTO!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Contos politicamente correctos...

A FORMIGA E A CIGARRA


“No mundo dos Gregos antigos, a agricultura estava ainda numa fase de rudimentaridade avançada. Os ecossistemas agrícolas eram diversos e saudáveis, com as plantas silvestres indígenas e as prósperas colónias de insectos a partilhar o espaço com as culturas domesticadas. Daqui resultava que as searas e as vinhas estavam cheias de insectos vigorosos, afoitos e bem falantes. De todos o mais laborioso era sem dúvida a formiga. Todo o santo Verão labutava à torreira do sol, acarretando cereais e sementes para a sua despensa, na antevisão de um Inverno prolongado.No mesmo campo vivia uma cigarra cuja vida era muito livre de cuidados, dado que há muito tinha rejeitado o conceito burguês, ganancioso, do “ganhar a vida”. Para ela, a existência ideal era a que consistia em usufruir da natureza em moldes duma exploração não estruturada e folgazona, de que muitas vezes tirava o melhor partido, passando a maior parte do dia a dormir. Outras vezes cantava alegremente nas searas, chuRRIIP, chuRRIIP, assim mantendo a rica tradição oral das cigarras.Esta atitude alternativa não passava despercebida à formiga, entregue à sua azáfama ao calor e ao pó. Quando via a cigarra a gozar a vida, sentia um frémito de raiva em todos os orifícios do seu exosqueleto.“Olha-me para aquela cigarra”, murmurava a formiga de si para consigo. “Passa o dia sentada sobre o abdome, a cantar as suas cantigas de cana rachada. Quando será que ela vai dar algum sinal de responsabilidade? Chamar-lhe sanguessuga seria um insulto a todos os vermes segmentados e trabalhadores deste país. Esta limita-se a vigiar-me, à espera da oportunidade de me assaltar e me roubar tudo o que eu juntei com tanto trabalhinho. É o que fazem os da laia dela.”Por seu turno, a cigarra estava a olhar para a formiga, mas numa linha de pensamento completamente diferente. “Olha-me para aquela formiga”, pensava ela, “o que ela trabalha para juntar uma pobre reserva de cereais. E afinal para quê? Se ao menos tentasse entrar numa um pouco mais Zen, iria perceber que para a pedra tanto faz um grão como mil e que a chuva nunca tem de se preocupar com a sua caligrafia.”E assim se passou o Verão. A formiga, uma personalidade de tipo A sem tirar nem pôr, passou os seus dias num frenesim de trabalho, mas a sua actividade egoísta e socialmente irresponsável fez-se pagar. A formiga contraiu uma úlcera péptica, apanhou uns valentes sustos por causa dumas dores no tórax e perdeu quase todos os pêlos que tinha no alto da cabeça. Em meados de Setembro, o marido saiu de casa para comprar sais de frutos e nunca mais lhe apareceu. A formiga deixou-se de tal maneira obcecar pela sua reserva de cereais que foi ao ponto de instalar um sofisticado sistema de segurança no interior e área circundante do seu formigueiro, com câmaras de vídeo e sensores de movimento capazes de capturar qualquer presumível ladrão.Entre sestas, a cigarra observava tudo isto com desprendida curiosidade. Ao mesmo tempo estudava yoga, esquadrinhava a zona em busca da chávena ideal para fazer cappuccino, aprendeu a tocar viola sem mestre (a bem dizer, só uma canção, que ela própria escreveu, em estilo de blues, com três notas) e principalmente mandriava. E procurava que o seu estilo de vida centrado no lazer se adequasse ao fluir das estações. Quando o tempo começava a ficar mais desagradável, começava ela a fazer planos de ir fazer surf para a Austrália. Mas, naquele ano, o Inverno chegou muito cedo (ou foi o Verão que se foi embora muito depressa, dependendo da orientação climática de cada um) e os campos rapidamente deixaram de produzir. A pobre cigarra achou-se vítima dos caprichos das alterações meteorológicas. Andou saltitando pelos campos em busca de sustento de qualquer espécie. Ter-se-ia contentado com uma migalha, uma casquita, uma semente ressequida, mas nada encontrou que fosse comestível.Até que vislumbrou a formiga, que, com toda a energia, arrastava atrás de si uma bela palha de trigo. A fome da cigarra levou a melhor sobre o seu orgulho e ela avançou, com a ideia de pedir à formiga que com ela repartisse um bocadinho do seu imenso pecúlio alimentar. Só que a formiga, mal avistou a cigarra, desatou a gritar.“AAAHHHHHH!!! O que é que tu queres? Que estás aqui a fazer? Vinhas roubar a minha palha, não vinhas? Eu sei que tu andavas à espera do dia em que me havias de roubar tudo o que tenho! Eu conheço bem a tua laia!”A cigarra bem tentou interrompê-la, mas a formiga prosseguiu: “Não me digas nada! Não me venhas com falinhas mansas e promessas vãs! Para ter o que tenho fartei-me de trabalhar, coisa que não está na moda em certos círculos.”A cigarra respondeu delicadamente: “Mas olha, Irmã Formiga, com certeza que tens mais do que alguma vez serás capaz de comer.”“Isso é problema meu”, disse a formiga, “e, que eu saiba, não vivemos em nenhuma república socialista, daquelas que até o sangue nos chupam...por enquantopelo menos ! Vê lá se tomas juízo, cigarra! O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.”“Sabes, é que eu estava com ideias de ir para a Austrália, mas o tempo a modos que mudou e tudo o que era comida desapareceu...”“É assim que funciona um mercado livre, minha. Vê se aprendes a lição.”“Vais-me desculpar, Irmã Formiga, mas sinto que é minha obrigação dizer-te que precisas de trabalhar o teu karma. A aura que estás a projectar está cheia de energia negativa, que facilmente podes transformar em positiva, bastando para que tanto...”“Olha lá, já que estás para aí a armar em mística comigo, diz-me uma coisa: Qual é som duma cigarra a morrer de fome? Ah, ah, ah!”A discussão inconclusiva da cigarra e da formiga foi interrompida pelo som dum pigarro. Ambas se viraram e deram de caras com um louva maior do que elas duas juntas! (O louva foi em tempos louva-a-deus, mas, por sentença judicial, teve de deixar de o ser. Mas manteve sempre um lado profundamente espiritual.) A formiga e a cigarra assustaram-se, não tanto pelo tamanho superior à média proporcional do louva, mas principalmente pela sua aparência, que não era para brincadeiras. Trazia um fato cinzento de poliester e sapatos mocassin castanhos com berloques e nas patas dianteiras via-se uma pasta, um saco de papel pardo com o almoço e uma calculadora.“Quem é a formiga?”, perguntou o louva, embora conhecesse muitíssimo bem quem procurava. “Formiga, venho fazer-te uma auditoria.”Com estas seis palavras de mau prenúncio, muda o curso da nossa história. Vamos evitar os pormenores sobre a auditoria, as acusações contestadas, o processo judicial e respectivos recursos e a falhada tentativa de fuga da formiga para as ilhas Cayman, bastando que se diga que o produto do açambarcamento feito pelo ganancioso insecto foi confiscado e destinado a fins comunitários mais responsáveis, na sequência da integração da formiga no sistema correccional. Enquanto isto, a cigarra organizava um programa para os jovens insectos da região desejosos de intercâmbio cultural com países dotados de climas mais quentes. Graças a uma redistribuição dos recursos do governo ( e aos bens da formiga), a cigarra vem desde então até hoje guiando expedições de surfistas.”


In CONTOS DE FADAS POLITICAMENTE CORRECTOS – Contos de sempre nos tempos modernos


De James Finn Garner

quarta-feira, 2 de abril de 2008


A Criança
Aberta, discreta
ou desatenta

é como o poeta:

não mente, inventa.



Luís Veiga Leitão
É curioso como não sei dizer quem sou.
Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer
porque no momento em que tento falar
não só não exprimo o que sinto como
o que sinto se transforma lentamente
no que eu digo.


Clarice Lispector

domingo, 23 de março de 2008

Quando vieres

«Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o seu cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando vieres,
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora

Maria Eugénia Cunhal

Regar plantas como quem rega palavras...




«Regas as plantas, como eu rego as palavras

Elas nascem no meio das frases e eu

Corto aquelas que estão a mais. . .

Porque, assim como tu preferes uma única rosa que seja bela

Eu prefiro uma palavra simples que diga tudo.»

Maria Eugénia Cunhal

quarta-feira, 19 de março de 2008


De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(Versos do menino que fazia versos)




O Menino Que Fazia Versos


- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na família ?
- Desculpe, doutor ?
O médico destrocou-se por tintins, Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação. Sim, perfume de igual qualidade qual outra mulher pode sequer sonhar ? Pobres que fossem os dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e a escola do miúdo. Mas eis que começam a aparecer, pelos recantos da casa, papeis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
- São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual ? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto ?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, e sobretudo lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa ?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: está a ver, doutor ? Está ver ? O médico voltou a erguer o olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores ?
- O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.
Serafina voltou à carga e sapateou a nuca do filho. Não lembrava o que pai lhe dissera sobre os sonhos ? Que fosse sonhar longe ! Mas o filho reagiu: longe, porquê ? Perto, o sonho aleijaria alguém ? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o riso. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, já inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte foram os últimos a serem atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos ? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever ?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho esse pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
- Não importa, respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.

Mia Couto in " O Fio das Missangas"

segunda-feira, 10 de março de 2008


“…pensar que um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir ainda uma e outra vez…”

Milan Kundera




sábado, 8 de março de 2008

8 de Março Dia da Mulher



















"A imagem da morte deve ser como a imagem de um espelho que nos ensina o quanto a vida é um sopro passageiro"


Shakespeare


Sim a morte deveria ensinar-nos o quanto a vida é passageira, rápida e intensa, como a luz de uma vela que rápidamente se apaga ...
Hoje dia da mulher despedi-me de ti, MULHER mãe, MULHER batalhadora, MULHER divertida, MULHER linda, MULHER... porque não podemos escolher o dia da despedida o teu foi hoje!


ADEUS PRIMA

sexta-feira, 7 de março de 2008

"il y a ceux qui se rencontrent et ceux qui se reconnaissent"

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Quem conta um conto acrescenta um ponto...






Viver com as fadas

Os contos de fadas abrem-nos as portas para o mundo dos sonhos, mas não só. São importantes para manter acesa a chama do inconformismo, da inquietação, no fundo para formar cidadãos capazes de perceber que a realidade nem sempre é aquilo que parece. E que está nas nossas mãos a possibilidade de transformar essa mesma realidade.

Maria Gabriela Llansol

E havia o Anjo da Esperança, que era o mais
Temido. Porquê o mais temido? Porque se sabia
Não Esperado. vinha a qualquer momento agarrar
Para a luta combatente, que é diferente da luta
Divergente. o que esfria distancia-se.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

BARCOS




















Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua
E a curva do seu bico
Rói a solidão.
Sophia de Mello Breyner Andresen (in MAR)

Maria Gabriela Llansol

O amor viu alguém passar e ir-se embora

num tempo breve de silhueta. Se houve

batimento de coração, sua oscilação foi

Imperceptível. Como a ampulheta se não

moveu, o amor prometeu que, se próxima

Vez houvesse, iria prestar atenção à vida

Inesperada. Sursum corda!
Se Perguntarem Por Mim...
Digam Que Voei...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

“O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO”

















“Pássaros nenhuns não havia. Tudo em liso silêncio. Mas meu pai, só ele escutava o rouco grasnar dos flamingos. Dívida que ele tinha com as aves pernaltas. Os pescadores chamam-lhes os ‘salva-vidas’. No meio da noite, em plena tempestade, quando se perde noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores perdidos”.





MIA COUTO

MIA COUTO

Aos poucos, vou perdendo a língua dos homens, tomado pelo sotaque do chão. Na luminosa varanda deixo meu último sonho, a árvore de frangipani. Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte.

A Varanda do Frangipani

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Deixa-me rir

«Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa,
do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar

E não é teu o que queres vender
Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente

Não me venhas falar de amor !
Pois é , pois é
Há quem viva escondido a vida inteira

Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira
Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique

Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio

Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante
Pois é, pois é

Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira »

GOSTO

Gosto de observar pessoas,
desligar de tudo durante muito tempo apenas a respirar,
imaginar cenários,
olhar as pessoas nos olhos,
tomar um café, e conversar num lugar perfeito,
estar com amigos
viagens, ...

Gosto também de pequeninas coisas...
do cheiro da terra depois da chuva,
gosto de chá,
de chocolate,
de um cobertor muito macio,
da água a escorrer pelo corpo,
do vento a bater na cara quando corro...
e de mim,
cada vez mais...
vezes!

MIA COUTO

Perguntas à Língua Portuguesa


Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?

Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver.

Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?


No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?


• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?

• O mato desconhecido é que é o anonimato?

• O pequeno viaduto é um abreviaduto?

• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.

• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?

• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?

• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?

• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

• Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?

• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?

• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?

• Mulher desdentada pode usar fio dental?

• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?

• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?

• Um tufão pequeno: um tufinho?

• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?

• Em águas doces alguém se pode salpicar?

• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?

• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?

• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?

• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?


Brincadeiras, brincriações.

E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

















Umas vezes o tanto que falta

outras o que já foi caminhado...

PABLO NERUDA

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

TAMBÉM GOSTO...

  • de abraços demorados

  • de pessoas autênticas

  • de conversas eternas

  • de quadros grandes

  • de todas as estrelas do céu

  • do sol da manhã e da luz do dia

  • do vento quando deixa marcas na areia lisa

  • de ver pessoas felizes

  • de me esquecer das horas

  • da verdade e da cumplicidade

  • e de mim

  • às vezes...

" UM ROSTO QUE HÁ-DE VIR"

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente.
Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)
Que una persona no lea es una estupidez,
un crimen que pagará el resto de su vida.
Pero cuando es un país el que no lee,
ese crimen lo pagará con su historia.

Mempo Giardinelli

... a melhor sala de aula do mundo...










































quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

ENTARDECER...





























































































NOSTALGIA...MIRAGENS





terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Gosto de gente • Gosto de falar • Gosto de ouvir • Gosto de amar • Gosto de ser amada • Gosto de música • Gosto de um bom livro • Gosto de desenhar • Gosto de um bom jantar • Gosto de um bom amigo • Gosto de desafios • Gosto da verdade • Gosto de justiça • Gosto da lealdade • Gosto da honestidade • Gosto do cheiro do mar • Gosto do vento na cara • Gosto de brincar • Gosto de rir • Gosto de chorar • Gosto da vida • Gosto de mim! Às vezes...outras não!...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

JOSÉ MENA ABRANTES


O bebé e a mãe

crescera dentro
da mãe
como todos os bebés
uma faca grande
talvez suja
como tantas vezes acontece
cortara
o cordão da vida
que o ligava
à mãe
uma manhã
aninhado
no calor das costas
da mãe
acordou de repente
a mãe corria
depois a mãe caiu
e ele com ela
a mãe ficou
quieta
muito quieta
e ele
chorou alto
sentiu então
que o uniam de novo
à mãe
com uma faca grande
talvez suja
como tantas vezes acontece

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Italo Calvino

"Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Para Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha de baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos diante das torres de reduto, onde se te opõem resistência os Livros Que Há Muito Programaste Ler,
os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,
os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Te Ocupas Neste Momento,
os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,
os Livros Que Te Faltam Para Pores Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,
os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina,
Frenética E Não Claramente Justificada.
E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Que Leste e Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.

ITALO CALVINO
"Se numa noite de Inverno um viajante"