
Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tăo bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tăo perto tăo real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já năo é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,a vê-lo correr da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
e pu-lo no chão,a vê-lo correr da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
José Gomes Ferreira
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
José Gomes Ferreira
O amor que choveu
Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado).O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais quinze meninos. Na escola, trezentos. No mundo, vai saber, uns dois bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura -- só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.O que é que eu faço? -- perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! -- diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele -- se tem oito braços para os abraços, por que não quatro corações, para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor.Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já nem cabia dentro dela.
Antônio Prata
Antônio Prata
domingo, 11 de novembro de 2007
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém terás estrelas como ninguém .... quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!
(Antoine de Saint-Exupéry )
(Antoine de Saint-Exupéry )
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Quem conta um conto…
“Toda a gente sabe contar uma história.” Será? Dois contadores profissionais falam da importância dos contos e de uma ou outra regra para narrá-los bem. Tem de ser um acto de amor, dizem.
Stória, stória
Furtuna di Séu, ámen
As histórias da noite fazem parte de um ritual sagrado para muitas crianças, que muitas vezes é profanado pela falta de tempo, cansaço, má-disposição… Vale a pena não desistir. Todos concordam: os contos são fundamentais para alimentar o imaginário. Contá-los é um acto de amor, dizem os contadores.
E dizem também que o melhor é pôr os livros de lado e contar, olhos nos olhos, que há um menino que ganhou asas para procurar o ó-ó; que um lobo se aproxima do jardim onde brinca o Pedro; que uma carochinha anda à procura de marido. Uma história é sempre melhor quando não há barreiras entre o narrador e o ouvinte.
Também ajuda lembrar as histórias que nos contavam os avós, os pais, os professores. É bom recordar situações de infância, diz António Fontinha, contador de contos profissional. Há um mundo, que tem a ver com a memória, que é aquele que se está a tentar reacender. Temos de fazer arqueologia: ir aos sítios a que a memória está ligada, falar com as pessoas.
O conto é importante para ajudar a desenvolver o espaço da oralidade em casa. Temos de reconstruir o espaço da oralidade para conviver ao nível do imaginário.
Não há receitas para contar bem uma história, porque o que serve a um pode não servir a outro. Mas, diz, pode haver algumas técnicas: a repetição é uma regra de ouro. As personagens ganham vida com o tempo. Começa-se a experimentar coisas. Diz-se que quem conta um conto acrescenta um ponto. É esse ponto, o pormenor, que vai evoluindo.
Isso também só acontece com as histórias que dão prazer contar. O que leva à segunda regra: Nunca devemos contar um conto de que não gostamos.
Toda a gente sabe contar uma história, defende o contador cabo-verdiano Horácio Santos. E, recorrendo também ao ditado popular, o contador acrescenta: A forma de contar é que é o ponto. Ninguém conta a mesma coisa da mesma maneira. Horácio Santos prefere também ter as mãos livres de livros e recorrer à memória. Com um livro perde-se a capacidade de recriar. Quando conto, desdobro-me em personagens. O livro prende o contador e parte o entusiasmo.
Para o contador cabo-verdiano, todas as histórias são boas para crianças, mesmo as que têm violência. No original, o Capuchinho Vermelho morreu. Qualquer história tradicional, popular, tem partes violentas. Podem, no entanto, evitar-se certas palavras, procurar outras que acertem melhor.
Horácio Santos começa sempre as suas sessões de histórias com uma tradição trazida de Cabo Verde:
Stória, stória
Furtuna di Séu, ámen
(História, história, dádiva do céu, ámen)
Porque um conto é uma graça divina. Todo o tempo dedicado a contar uma história é um tempo fértil, que germinará, diz por sua vez Fontinha. Tudo o que se dá à terra, a terra devolve. A terra não é madrasta. O imaginário, transmitido pelos contos, também não. É um património que acompanha as crianças, que as cultiva. Um contador de histórias é sempre um educador: os contos passam valores , continua Fontinha.
E é também por isso que Horácio Santos defende um trabalho depois da história: terminado o conto, há que identificar os elementos, ambientes, personagens, para que a criança possa descodificar e recontar o que ouviu: Fazer o exercício da memória. Neste processo, a criança estabelece o diálogo com os pais.
Fontinha sugere que os adultos entrem agora no mundo do narrador e que não o esgotem nos próximos anos, apenas enquanto os filhos são crianças; pelo contrário, defende que este papel deve ser prolongado por toda a vida. O resultado será uma forte cumplicidade entre pais e filhos. E uma recuperação da tradição oral.
in análise de contos, contadores, contos, contos infantis, crianças, educação, escola, família, fantasia, imaginação, pedagogia, relações humanas, simbologia,
“Toda a gente sabe contar uma história.” Será? Dois contadores profissionais falam da importância dos contos e de uma ou outra regra para narrá-los bem. Tem de ser um acto de amor, dizem.
Stória, stória
Furtuna di Séu, ámen
As histórias da noite fazem parte de um ritual sagrado para muitas crianças, que muitas vezes é profanado pela falta de tempo, cansaço, má-disposição… Vale a pena não desistir. Todos concordam: os contos são fundamentais para alimentar o imaginário. Contá-los é um acto de amor, dizem os contadores.
E dizem também que o melhor é pôr os livros de lado e contar, olhos nos olhos, que há um menino que ganhou asas para procurar o ó-ó; que um lobo se aproxima do jardim onde brinca o Pedro; que uma carochinha anda à procura de marido. Uma história é sempre melhor quando não há barreiras entre o narrador e o ouvinte.
Também ajuda lembrar as histórias que nos contavam os avós, os pais, os professores. É bom recordar situações de infância, diz António Fontinha, contador de contos profissional. Há um mundo, que tem a ver com a memória, que é aquele que se está a tentar reacender. Temos de fazer arqueologia: ir aos sítios a que a memória está ligada, falar com as pessoas.
O conto é importante para ajudar a desenvolver o espaço da oralidade em casa. Temos de reconstruir o espaço da oralidade para conviver ao nível do imaginário.
Não há receitas para contar bem uma história, porque o que serve a um pode não servir a outro. Mas, diz, pode haver algumas técnicas: a repetição é uma regra de ouro. As personagens ganham vida com o tempo. Começa-se a experimentar coisas. Diz-se que quem conta um conto acrescenta um ponto. É esse ponto, o pormenor, que vai evoluindo.
Isso também só acontece com as histórias que dão prazer contar. O que leva à segunda regra: Nunca devemos contar um conto de que não gostamos.
Toda a gente sabe contar uma história, defende o contador cabo-verdiano Horácio Santos. E, recorrendo também ao ditado popular, o contador acrescenta: A forma de contar é que é o ponto. Ninguém conta a mesma coisa da mesma maneira. Horácio Santos prefere também ter as mãos livres de livros e recorrer à memória. Com um livro perde-se a capacidade de recriar. Quando conto, desdobro-me em personagens. O livro prende o contador e parte o entusiasmo.
Para o contador cabo-verdiano, todas as histórias são boas para crianças, mesmo as que têm violência. No original, o Capuchinho Vermelho morreu. Qualquer história tradicional, popular, tem partes violentas. Podem, no entanto, evitar-se certas palavras, procurar outras que acertem melhor.
Horácio Santos começa sempre as suas sessões de histórias com uma tradição trazida de Cabo Verde:
Stória, stória
Furtuna di Séu, ámen
(História, história, dádiva do céu, ámen)
Porque um conto é uma graça divina. Todo o tempo dedicado a contar uma história é um tempo fértil, que germinará, diz por sua vez Fontinha. Tudo o que se dá à terra, a terra devolve. A terra não é madrasta. O imaginário, transmitido pelos contos, também não. É um património que acompanha as crianças, que as cultiva. Um contador de histórias é sempre um educador: os contos passam valores , continua Fontinha.
E é também por isso que Horácio Santos defende um trabalho depois da história: terminado o conto, há que identificar os elementos, ambientes, personagens, para que a criança possa descodificar e recontar o que ouviu: Fazer o exercício da memória. Neste processo, a criança estabelece o diálogo com os pais.
Fontinha sugere que os adultos entrem agora no mundo do narrador e que não o esgotem nos próximos anos, apenas enquanto os filhos são crianças; pelo contrário, defende que este papel deve ser prolongado por toda a vida. O resultado será uma forte cumplicidade entre pais e filhos. E uma recuperação da tradição oral.
in análise de contos, contadores, contos, contos infantis, crianças, educação, escola, família, fantasia, imaginação, pedagogia, relações humanas, simbologia,

Versos para os pais lerem aos filhos
em noites de luar
Com versos da cor da lua
és tão grande e pequenino
como esta página branca
em que leio o teu destino.
Dorme agora sossegado
como as nuvens à noitinha
que eu fico aqui a teu lado
com a tua mão na minha.
Com versos da cor da luz
é que eu embalo o teu sono
nessa cadência suave
das cantigas no Outono.
E vêm bruxas e fadas,
duendes e feiticeiras
com mantos feitos de bruma
para saltar as fogueiras.
Com versos feitos de sonho
é que eu te faço sonhar
que és golfinho e rouxinol
ou peixe de prata a brilhar.
E cada linha que tu lês
é perfeita como o traço
de um pintor que te envolve
com as cores de um abraço.
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.
Cada palavra que aprendes
tem o gosto da aventura
e a magia secreta
que há no acto da leitura.
Cada palavra que escreves
é um fruto já maduro
que cai da árvore dos sons
e tem sabor de futuro.
Cada palavra aprendida
sabe a estrelas e a ilhas
e vai pela mão de Alice
ao País das Maravilhas.
Cada palavra já lida
ao mapa há-de acrescentar
mais uma rota esquecida
que os livros hão-de lembrar.
Cada palavra já lida,
seja em Lisboa ou em Tóquio,
há-de deixar-se
guiar pelo nariz do Pinóquio,
e mesmo se for mentira
aprenderá com o seu guia
o que vale para quem lê
esse dom da fantasia.
Cada palavra que nasce
mesmo no centro da fala
é como um tesouro oculto
no recanto de uma sala,
e pode ser um unicórnio,
dragão ou mesmo arlequim,
transformando-se numa pomba
quando a história chegar ao fim.
E há meninos luminosos
que nos livros já semeiam
com o som das suas vozes
as viagens que nomeiam.
São navegantes, corsários,
São os bravos almirantes
Dos sonhos que nos mostram
o mundo como era dantes.
José Jorge Letria
Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar
terça-feira, 6 de novembro de 2007
A mãe dos contos

A Mãe dos Contos
Onde, como e porque nasceram os contos? Houve uma mulher que o soube, no dealbar do mundo. Quem lho contou? A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?
A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?
Na grande floresta que existia no princípio do mundo, vivia um lenhador rude e a sua mulher triste. Viviam pobremente numa casa térrea, na clareira de uma floresta. Só tinham por vizinhos animais selvagens e, através da fresta que tinham no tecto, viam apenas passar ventos, chuvas e sóis. Mas não era a monotonia dos dias que entristecia a mulher deste lenhador, e que a fazia chorar, sozinha, na cozinha. Se assim fosse, ela ter-se-ia habituado: haveria anos melhores e anos piores.
Infelizmente, o marido tinha a alma tão bravia quanto emaranhadas eram a sua barba e a sua cabeleira. Era isso que perturbava a mulher. Ao toque, o homem era como um arbusto de espinhos. Quando beijava a companheira, fazia-o a resmungar e não sem antes lhe ter batido. Todas as noites se repetia a mesma cena. Quando chegava da floresta, o lenhador empurrava a porta com o ombro. Com um grosso cajado de madeira na mão, arregaçava a manga direita, aproximava-se da mulher, que tremia a um canto, e espancava-a. Era a sua maneira de lhe dar as boas noites.
Mil dias, mil noites e mil sovas se passaram. A mulher aguentou, sem uma palavra de revolta, a pancada de que era alvo todas as noites. Até que chegou uma alvorada de Verão. Nessa manhã, à medida que via o marido afastar-se em direcção às grandes árvores, com o machado a tiracolo, a mulher pôs as mãos nas ancas e, pela primeira vez, desde o dia do seu casamento, sorriu. Sentia que uma nova vida despontava no seu ventre. “Uma criança!” pensou ela a tremer, maravilhada.
Mas a sua felicidade foi efémera, pois logo a assaltou um medo como nunca havia sentido. “Que desgraça! Quem a protegerá se o meu marido me continuar a bater? Pode atingir a criança. Ainda a mata antes de ela nascer. Como hei-de salvá-la? Salvo-a se não for mais espancada. Mas como posso evitar voltar a ser espancada, Senhor?” Reflectiu nisso durante todo o dia com tanta preocupação, tanta força e tanto amor pela vida do filho que iria nascer que, à noite, sentiu que uma luz despontava.
Observou o marido que, como era hábito, regressou dos bosques ao cair da noite. Quando este, a resmungar, levantou o braço nodoso e se preparava para lhe bater com o cajado, a mulher pediu-lhe:
— Espera, meu senhor! Hoje aprendi uma história. É muito bonita. Ouve-a primeiro e bater-me-ás depois.
Não sabia o que ia dizer, mas lembrou-se de um conto. Foi como se uma nascente cristalina e alegre tivesse começado a brotar. O homem ficou como que cativo diante dela, tão espantado e contente que até se esqueceu de lhe bater. A mulher falou durante toda a noite. E durante toda a noite ele a escutou, com os olhos arregalados de espanto, sem sequer se mexer. Quando o dia iluminou de novo a fresta da cabana, ela calou-se por fim. O marido viu a alvorada, suspirou, pegou no machado e foi trabalhar.
Quando a noite caiu, a mulher contou-lhe de novo uma história. Fê-lo durante nove meses, para proteger a vida que trazia no ventre. E quando a criança nasceu, o homem soube o que era o amor. E quando o amor nasceu, os contos daqueles nove meses invadiram a terra. Bendita seja esta mãe que os pôs no mundo. Sem ela, ainda hoje só os cajados falariam.
Henri Gougaud
L’Arbre d’Amour et de Sagesse. Contes du Monde Entier
Paris, Éditions du Seuil, 1992
Onde, como e porque nasceram os contos? Houve uma mulher que o soube, no dealbar do mundo. Quem lho contou? A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?
A criança que ela trazia no ventre. Quem o contou à criança? O silêncio de Deus. Quem o contou ao silêncio?
Na grande floresta que existia no princípio do mundo, vivia um lenhador rude e a sua mulher triste. Viviam pobremente numa casa térrea, na clareira de uma floresta. Só tinham por vizinhos animais selvagens e, através da fresta que tinham no tecto, viam apenas passar ventos, chuvas e sóis. Mas não era a monotonia dos dias que entristecia a mulher deste lenhador, e que a fazia chorar, sozinha, na cozinha. Se assim fosse, ela ter-se-ia habituado: haveria anos melhores e anos piores.
Infelizmente, o marido tinha a alma tão bravia quanto emaranhadas eram a sua barba e a sua cabeleira. Era isso que perturbava a mulher. Ao toque, o homem era como um arbusto de espinhos. Quando beijava a companheira, fazia-o a resmungar e não sem antes lhe ter batido. Todas as noites se repetia a mesma cena. Quando chegava da floresta, o lenhador empurrava a porta com o ombro. Com um grosso cajado de madeira na mão, arregaçava a manga direita, aproximava-se da mulher, que tremia a um canto, e espancava-a. Era a sua maneira de lhe dar as boas noites.
Mil dias, mil noites e mil sovas se passaram. A mulher aguentou, sem uma palavra de revolta, a pancada de que era alvo todas as noites. Até que chegou uma alvorada de Verão. Nessa manhã, à medida que via o marido afastar-se em direcção às grandes árvores, com o machado a tiracolo, a mulher pôs as mãos nas ancas e, pela primeira vez, desde o dia do seu casamento, sorriu. Sentia que uma nova vida despontava no seu ventre. “Uma criança!” pensou ela a tremer, maravilhada.
Mas a sua felicidade foi efémera, pois logo a assaltou um medo como nunca havia sentido. “Que desgraça! Quem a protegerá se o meu marido me continuar a bater? Pode atingir a criança. Ainda a mata antes de ela nascer. Como hei-de salvá-la? Salvo-a se não for mais espancada. Mas como posso evitar voltar a ser espancada, Senhor?” Reflectiu nisso durante todo o dia com tanta preocupação, tanta força e tanto amor pela vida do filho que iria nascer que, à noite, sentiu que uma luz despontava.
Observou o marido que, como era hábito, regressou dos bosques ao cair da noite. Quando este, a resmungar, levantou o braço nodoso e se preparava para lhe bater com o cajado, a mulher pediu-lhe:
— Espera, meu senhor! Hoje aprendi uma história. É muito bonita. Ouve-a primeiro e bater-me-ás depois.
Não sabia o que ia dizer, mas lembrou-se de um conto. Foi como se uma nascente cristalina e alegre tivesse começado a brotar. O homem ficou como que cativo diante dela, tão espantado e contente que até se esqueceu de lhe bater. A mulher falou durante toda a noite. E durante toda a noite ele a escutou, com os olhos arregalados de espanto, sem sequer se mexer. Quando o dia iluminou de novo a fresta da cabana, ela calou-se por fim. O marido viu a alvorada, suspirou, pegou no machado e foi trabalhar.
Quando a noite caiu, a mulher contou-lhe de novo uma história. Fê-lo durante nove meses, para proteger a vida que trazia no ventre. E quando a criança nasceu, o homem soube o que era o amor. E quando o amor nasceu, os contos daqueles nove meses invadiram a terra. Bendita seja esta mãe que os pôs no mundo. Sem ela, ainda hoje só os cajados falariam.
Henri Gougaud
L’Arbre d’Amour et de Sagesse. Contes du Monde Entier
Paris, Éditions du Seuil, 1992
Todas as estrelas
A menina do pinhal
Era uma vez uma mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo…
Era uma vez uma velha
que bem contava uma história:
uma história muito linda
que ela tinha de memória.
Esta mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, era avó de muitos netos. Netos que, à volta do mundo, a ouviam contar.
E a avó contava, contava, devagarinho, assim a modos cansada.
Cabelos brancos de lua,
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai, netinhos, se eu me canso!
E os netos do mundo ouviam… ai!, mas o que ouviam os meninos do mundo? Uma história misteriosa…
Conta a história toda, toda,
Sem tirar sequer um ponto!
Pediam os meninos do mundo
Que a avó contasse o conto.
A avó sorria. Estremecia devagarinho, como se fosse uma árvore que o vento abanasse. E os netos do mundo escutavam.
É o vento da memória
Que me faz estremecer:
Meu coração lembra a história…
Escutem, que o ouvem bater.
E os netos, pelo mundo, ficavam muito calados a escutar a história do coração da avó.
Ai! Se a memória não falha!
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera.
E os meninos do mundo escutavam. E repetiam:
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
Era uma história lembrada
No tempo da Primavera.
E a avó sorria contente, o coração a bater de alegria. E continuava…
A história de uma menina
Que vivia num pinhal:
Seus brinquedos eram pinhas
Em cestinhas de cristal.
Em cestinhas de cristal.
Cristal da neve dos montes.
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
Nas agulhas dos pinheiros
Cantar o vento ela ouvia
E com o vento cantava
O canto da cotovia.
E o cuco com seu cu-cu,
O gaio com seu piu-piu
Eram caixinha de música
Como nunca ninguém viu.
E os netinhos do mundo ouviam, ouviam. E a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, continuava a contar…
Cabelos brancos de lua.
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai! Meninos, se eu me canso!
― Continua, Avó, continua! ― pediam os meninos.
Mas deixem que eu vou contar,
Se me não falha a memória:
Também tinha pombas brancas
A menina desta história.
E rolas mansas, cinzentas,
Com o seu canto a rolar:
Tanta ave no pinhal,
Tanta asa para voar!
E pelo chão do pinhal,
Também tanta vida havia:
Formiguinhas de silêncio
Que cantavam a alegria.
E tantos outros bichinhos
De conta, conta a contar.
A viverem pelo chão
Com segredos pra escutar.
E a avó ficava-se a olhar para o chão poeirento do pinhal cheio de segredos e de caruma.
E os meninos também olhavam muito curiosos para o chão poeirento do pinhal e escutavam os segredos dos bichos pequeninos, das agulhas mortas dos pinheiros.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Gritou: ― Ai! O que é? Que é?
Uma verde lagartixa
Fez-me cócegas no pé!
E os netos do mundo riam, riam, com o susto (pequenino) da avó.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Outro gritinho soltou:
― Uma formiga, na perna,
Aqui mesmo me picou!
E os meninos do mundo riam, riam. Oh! A avó tinha tanta graça!
Agora a avó não estremecia como se o vento a abanasse, docemente, mas dava um pulinho de pulga e coçava a perna picada pela formiga.
― Ó avó, conta, conta! ― pediam os meninos a rir.
E os meninos não paravam de pedir: ― Ó avó, conta, conta!
Ai! Se a memória não falha,
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Mas a avó parou outra vez, de repente, parou de contar. E deu outro pulinho:
Ai!, as minhas encomendas!
Rápida como uma seta,
Em meus cabelos de lua
Meteu-se uma borboleta!
E os meninos riam, riam!
― Deixa lá, avó! Continua a contar!
E a avó continuava, coçando a cabeça de luar, de onde voou uma borboleta amarela.
E a avó continuava:
Ouviu-se uma trovoada
E a menina do pinhal
Deixou cair, assustada,
A cestinha de cristal.
A cestinha de cristal,
Cristal da neve dos montes,
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
E as pinhas, seus brinquedos,
Da cestinha de cristal,
Eram verde, verde-pinho
Que rolava pelo pinhal…
E calou-se a trovoada
E rebentaram as fontes;
E flautas de vento verde
Varriam campos e montes.
Nos ninhos abriam ovos.
Eram asas para voar:
As agulhas dos pinheiros
Já tinham novo cantar.
E a menina do pinhal
Já tinha outro brincar:
Com uma saia de giestas
Não parava de dançar…
Xaile de chuva, fininho.
Franjas de sol a voar.
A menina do pinhal
Não parava de dançar…
Com sapatos rosas bravas
Não parava de dançar:
A menina do pinhal
Já tinha outro brincar…
E depois de contar isto tudo, a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, a avó dos meninos do mundo, ficou estafada. Suspirou três vezes: Uf! Uf! Uf! Ah! Ah! Ah! Mas estava tão contente! Que alegria no pinhal e pelos campos! Agora podia descansar.
E agora, meninos do mundo.
Vou dormir devagarinho.
Deitada em cama de nuvens,
Coberta de rosmaninho…
E os meninos do mundo fizeram sinal uns aos outros ― Schiu… ― para se calarem, com os dedos indicadores (os furabolos) diante da boca, em sinal de silêncio, para que a avó pudesse adormecer ― Schiu… Schiu… Schiu…
E embalaram a avó, num cantar amigo, quase calado:
Já sabemos o segredo.
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Matilde Rosa Araújo
Histórias e canções em quatro estações
Era uma vez uma velha
que bem contava uma história:
uma história muito linda
que ela tinha de memória.
Esta mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, era avó de muitos netos. Netos que, à volta do mundo, a ouviam contar.
E a avó contava, contava, devagarinho, assim a modos cansada.
Cabelos brancos de lua,
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai, netinhos, se eu me canso!
E os netos do mundo ouviam… ai!, mas o que ouviam os meninos do mundo? Uma história misteriosa…
Conta a história toda, toda,
Sem tirar sequer um ponto!
Pediam os meninos do mundo
Que a avó contasse o conto.
A avó sorria. Estremecia devagarinho, como se fosse uma árvore que o vento abanasse. E os netos do mundo escutavam.
É o vento da memória
Que me faz estremecer:
Meu coração lembra a história…
Escutem, que o ouvem bater.
E os netos, pelo mundo, ficavam muito calados a escutar a história do coração da avó.
Ai! Se a memória não falha!
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera.
E os meninos do mundo escutavam. E repetiam:
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
Era uma história lembrada
No tempo da Primavera.
E a avó sorria contente, o coração a bater de alegria. E continuava…
A história de uma menina
Que vivia num pinhal:
Seus brinquedos eram pinhas
Em cestinhas de cristal.
Em cestinhas de cristal.
Cristal da neve dos montes.
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
Nas agulhas dos pinheiros
Cantar o vento ela ouvia
E com o vento cantava
O canto da cotovia.
E o cuco com seu cu-cu,
O gaio com seu piu-piu
Eram caixinha de música
Como nunca ninguém viu.
E os netinhos do mundo ouviam, ouviam. E a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, continuava a contar…
Cabelos brancos de lua.
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai! Meninos, se eu me canso!
― Continua, Avó, continua! ― pediam os meninos.
Mas deixem que eu vou contar,
Se me não falha a memória:
Também tinha pombas brancas
A menina desta história.
E rolas mansas, cinzentas,
Com o seu canto a rolar:
Tanta ave no pinhal,
Tanta asa para voar!
E pelo chão do pinhal,
Também tanta vida havia:
Formiguinhas de silêncio
Que cantavam a alegria.
E tantos outros bichinhos
De conta, conta a contar.
A viverem pelo chão
Com segredos pra escutar.
E a avó ficava-se a olhar para o chão poeirento do pinhal cheio de segredos e de caruma.
E os meninos também olhavam muito curiosos para o chão poeirento do pinhal e escutavam os segredos dos bichos pequeninos, das agulhas mortas dos pinheiros.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Gritou: ― Ai! O que é? Que é?
Uma verde lagartixa
Fez-me cócegas no pé!
E os netos do mundo riam, riam, com o susto (pequenino) da avó.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Outro gritinho soltou:
― Uma formiga, na perna,
Aqui mesmo me picou!
E os meninos do mundo riam, riam. Oh! A avó tinha tanta graça!
Agora a avó não estremecia como se o vento a abanasse, docemente, mas dava um pulinho de pulga e coçava a perna picada pela formiga.
― Ó avó, conta, conta! ― pediam os meninos a rir.
E os meninos não paravam de pedir: ― Ó avó, conta, conta!
Ai! Se a memória não falha,
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Mas a avó parou outra vez, de repente, parou de contar. E deu outro pulinho:
Ai!, as minhas encomendas!
Rápida como uma seta,
Em meus cabelos de lua
Meteu-se uma borboleta!
E os meninos riam, riam!
― Deixa lá, avó! Continua a contar!
E a avó continuava, coçando a cabeça de luar, de onde voou uma borboleta amarela.
E a avó continuava:
Ouviu-se uma trovoada
E a menina do pinhal
Deixou cair, assustada,
A cestinha de cristal.
A cestinha de cristal,
Cristal da neve dos montes,
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
E as pinhas, seus brinquedos,
Da cestinha de cristal,
Eram verde, verde-pinho
Que rolava pelo pinhal…
E calou-se a trovoada
E rebentaram as fontes;
E flautas de vento verde
Varriam campos e montes.
Nos ninhos abriam ovos.
Eram asas para voar:
As agulhas dos pinheiros
Já tinham novo cantar.
E a menina do pinhal
Já tinha outro brincar:
Com uma saia de giestas
Não parava de dançar…
Xaile de chuva, fininho.
Franjas de sol a voar.
A menina do pinhal
Não parava de dançar…
Com sapatos rosas bravas
Não parava de dançar:
A menina do pinhal
Já tinha outro brincar…
E depois de contar isto tudo, a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, a avó dos meninos do mundo, ficou estafada. Suspirou três vezes: Uf! Uf! Uf! Ah! Ah! Ah! Mas estava tão contente! Que alegria no pinhal e pelos campos! Agora podia descansar.
E agora, meninos do mundo.
Vou dormir devagarinho.
Deitada em cama de nuvens,
Coberta de rosmaninho…
E os meninos do mundo fizeram sinal uns aos outros ― Schiu… ― para se calarem, com os dedos indicadores (os furabolos) diante da boca, em sinal de silêncio, para que a avó pudesse adormecer ― Schiu… Schiu… Schiu…
E embalaram a avó, num cantar amigo, quase calado:
Já sabemos o segredo.
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Matilde Rosa Araújo
Histórias e canções em quatro estações
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
domingo, 4 de novembro de 2007
e os meninos também
Nininha se arrepiava, sempre, quando o vento, de final da tarde, lhe trazia cheiros de mato molhado. Daquela terra vermelha despertada pelas gotas prenhas de chuva.
De olhos fechados, erguia o nariz sugando aquela magia telúrica, que a parecia sorver terra adentro, céu acima. Pássaro sonhador sem fronteiras físicas. Nininha ficava ali, enfeitiçada por xicuembo, enquanto o chuveiro lhe rodava o vestido num abraço ensopado. Menina endoidada, ao olhar comum. Dos que da chuva sensatamente fugiam. Da magia dos sentidos escapavam.
Nininha ficava ali, com a chuva a lavar-lhe a alma, como se ela própria fosse terra de semeio, carente de rega. Até se fundir, de pés descalços, na torrente avermelhada do terreiro. Nininha cerrava os olhos. Voando no sonho pintado em sua alma. Menina-mulher, nascida em contra-dança com o socialmente esperável, coração insuportável de caber num só corpo. Certo certo, ninguém lhe adivinhava a idade, porque a métrica cronológica lhe extravasava o existir.
Anjo que era oferecido à Terra. Sonho plantado em corpo humano. Mas muito mais ela era do que isso, mesmo que tudo isso já bastasse para exceder a humana compreensão. Jurava, o menos longínquo de seus próximos, que um dia lhe escutara fala sózinha, com uma luz. Dela emergente. Farolando-a, concorrente ao Sol, entre o verde do manganal. Nininha se sentava no terreiro, atraindo, um a um, bandos de meninos, pirilampos de cristal, a quem distribuía rebuçados de olhares. Arco-íris de sonhares.
Dizia-se, no povoado, que ela se travestia no contar das histórias.
Fundindo-se personagens-mil. Ora flamingo rosado, em voo rasante. Esticado. Ora papa-formigas guloso, rapador militante daqueles ninhos-cónicos. Hotéis de vida do terreiro erguidos. Tudo isso era Nininha. Todas essas existências emprestadas. Mas, ao mesmo tempo, em sapato algum da humana existência parecendo caber. Mulher-menina bem o sabia. Bem se sabia diferente, com brilhos-mil para nos resgatar de nós próprios. Dessa vertigem, cada vez maior, de tudo esmagar à nossa volta. Casulando-nos em autismos de sentires. Indiferentes a tudo o que extravase o próprio umbigo. Ou, quando muito, o do séquito familiar restrito.
Um dia, vi um velho sentar-se, de mansinho, entre o passarinhado de meninos, à beira de Nininha. O homem, estendeu-lhe a mão e um pedido de história de encantar. Que o tirasse da humana escuridão.
Ela desdobrou-se em arco-íris. Iluminando-lhe o existir. Subtraindo-o da solidão. Até que o velho largou uma lágrima. Uma única. No terreiro vermelho. Nininha se arrepiou com o cheiro da terra molhada? e os meninos também.
Senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
Depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que um rio parara
e que o nevoeiro
existia nos teus dedos
Queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
dizer nada...
De olhos fechados, erguia o nariz sugando aquela magia telúrica, que a parecia sorver terra adentro, céu acima. Pássaro sonhador sem fronteiras físicas. Nininha ficava ali, enfeitiçada por xicuembo, enquanto o chuveiro lhe rodava o vestido num abraço ensopado. Menina endoidada, ao olhar comum. Dos que da chuva sensatamente fugiam. Da magia dos sentidos escapavam.
Nininha ficava ali, com a chuva a lavar-lhe a alma, como se ela própria fosse terra de semeio, carente de rega. Até se fundir, de pés descalços, na torrente avermelhada do terreiro. Nininha cerrava os olhos. Voando no sonho pintado em sua alma. Menina-mulher, nascida em contra-dança com o socialmente esperável, coração insuportável de caber num só corpo. Certo certo, ninguém lhe adivinhava a idade, porque a métrica cronológica lhe extravasava o existir.
Anjo que era oferecido à Terra. Sonho plantado em corpo humano. Mas muito mais ela era do que isso, mesmo que tudo isso já bastasse para exceder a humana compreensão. Jurava, o menos longínquo de seus próximos, que um dia lhe escutara fala sózinha, com uma luz. Dela emergente. Farolando-a, concorrente ao Sol, entre o verde do manganal. Nininha se sentava no terreiro, atraindo, um a um, bandos de meninos, pirilampos de cristal, a quem distribuía rebuçados de olhares. Arco-íris de sonhares.
Dizia-se, no povoado, que ela se travestia no contar das histórias.
Fundindo-se personagens-mil. Ora flamingo rosado, em voo rasante. Esticado. Ora papa-formigas guloso, rapador militante daqueles ninhos-cónicos. Hotéis de vida do terreiro erguidos. Tudo isso era Nininha. Todas essas existências emprestadas. Mas, ao mesmo tempo, em sapato algum da humana existência parecendo caber. Mulher-menina bem o sabia. Bem se sabia diferente, com brilhos-mil para nos resgatar de nós próprios. Dessa vertigem, cada vez maior, de tudo esmagar à nossa volta. Casulando-nos em autismos de sentires. Indiferentes a tudo o que extravase o próprio umbigo. Ou, quando muito, o do séquito familiar restrito.
Um dia, vi um velho sentar-se, de mansinho, entre o passarinhado de meninos, à beira de Nininha. O homem, estendeu-lhe a mão e um pedido de história de encantar. Que o tirasse da humana escuridão.
Ela desdobrou-se em arco-íris. Iluminando-lhe o existir. Subtraindo-o da solidão. Até que o velho largou uma lágrima. Uma única. No terreiro vermelho. Nininha se arrepiou com o cheiro da terra molhada? e os meninos também.
Senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
Depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que um rio parara
e que o nevoeiro
existia nos teus dedos
Queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
dizer nada...
Estes Difíceis Amores
To be or not to be
«Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? "O que eu andei p'ra aqui chegar..." Foi quase isso, um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem... -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
(...) Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, "desço ou ainda sobes?" O ainda era tão prometedor...; "subo". O olhar maroto, "estás com muita fome?" Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lento, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. (...) O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos e boca. E tu à espera, maliciosa, eu a custo segurando as rédeas do desejo, (...). A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço, longo e arqueado por solidariedade com os rins, à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. (...) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, "estou de rastos e quero mais". Será isso o amor?
(...) Com os olhos procuravas os meus, através da sala e conversas, carinho mudo. (...)
Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me de madrugada; e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara "dorme bem". E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. (...) E eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. (...) quando dizia "até logo" era exactamente isso que pensava, "volto logo e vai ser bom; tudo". Será isso o amor?
Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um "se verdadeiramente gostas de mim..." que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos... Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?
(...) verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados. Dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, "fecho a janela"? Será isso o amor?
Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, "como estás"? Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica o ciúme de paixão mal resolvida da tua parte; sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, "bem". O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, "este é o...". Que interessa o nome?, é o teu homem, "muito prazer". Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que perdeu a mulher que ele não dispensa, "muito prazer". Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, "foi bom ver-te". Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar - "sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza de que era o amor da tua vida..."-, acorda!, ainda podemos... Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços e reconhece a derrota e culpa, fica grata pelo que me deste e murmura um "boa sorte" que todo o resto do que sou fita horrorizado.
Será isto, finalmente, o amor?»
Júlio Machado Vaz
To be or not to be
«Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? "O que eu andei p'ra aqui chegar..." Foi quase isso, um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento - o que nem é difícil, tantos o fazem... -, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
(...) Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, "desço ou ainda sobes?" O ainda era tão prometedor...; "subo". O olhar maroto, "estás com muita fome?" Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lento, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. (...) O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos e boca. E tu à espera, maliciosa, eu a custo segurando as rédeas do desejo, (...). A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço, longo e arqueado por solidariedade com os rins, à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. (...) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, "estou de rastos e quero mais". Será isso o amor?
(...) Com os olhos procuravas os meus, através da sala e conversas, carinho mudo. (...)
Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me de madrugada; e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara "dorme bem". E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. (...) E eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. (...) quando dizia "até logo" era exactamente isso que pensava, "volto logo e vai ser bom; tudo". Será isso o amor?
Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um "se verdadeiramente gostas de mim..." que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos... Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?
(...) verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados. Dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, "fecho a janela"? Será isso o amor?
Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, "como estás"? Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica o ciúme de paixão mal resolvida da tua parte; sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, "bem". O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, "este é o...". Que interessa o nome?, é o teu homem, "muito prazer". Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que perdeu a mulher que ele não dispensa, "muito prazer". Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, "foi bom ver-te". Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar - "sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza de que era o amor da tua vida..."-, acorda!, ainda podemos... Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços e reconhece a derrota e culpa, fica grata pelo que me deste e murmura um "boa sorte" que todo o resto do que sou fita horrorizado.
Será isto, finalmente, o amor?»
Júlio Machado Vaz
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